Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

d'aquém e d'além

COISAS E COISINHAS DO NOSSO MUNDO augusto semedo

d'aquém e d'além

COISAS E COISINHAS DO NOSSO MUNDO augusto semedo

Há um tempo para tudo

Augusto Semedo, 28.04.13

Reflicto agora sobre a singularidade de uma conversa com um dos meus atletas jovem: como tão raras vezes, na voracidade dos dias, existe oportunidade para diálogos tranquilos sobre temas que tomam a nossa existência. Muitas vezes fiquei agradado com o seu comportamento desportivo e social perante o grupo que integra; como já aconteceu precisamente o contrário, tantas outras vezes.
No fundo, a inconstância, a irreverência e o desprendimento, que já nos caracterizavam também quando tínhamos a sua idade, contrastam com a maturação entretanto encontrada através da instrução que a vida adulta, com momentos marcadamente vivenciados, nos transmitiu. Éramos então jovens igualmente ingénuos e inseguros, simultaneamente de mente fresca e com certezas absolutas aparentes, investidos de uma vontade em mudar o mundo e de uma energia que acreditávamos nunca se esgotar, tal como acontece com os de hoje. Olhando-os, vemos duas diferenças apenas, embora significativas, que traduzem um tempo novo para uma geração com desafios perigosamente escondidos: crescíamos então num contexto mais modesto e comunitário, que apelava à responsabilidade individual perante os outros e a uma interacção potenciadora de partilha e de respeito mútuo; e não tínhamos pais que faziam dos filhos seres únicos e os mais especiais do universo mas alguém que integrava uma comunidade com os mesmos direitos e deveres dos outros.
É engraçado como as experiências nos fazem mais maduros mas também nos ensinam a relativizar e até a lançar dúvidas sobre tantas certezas absolutas que em tempos nos mobilizaram, sendo mesmo a matriz para decisões (criteriosas ou estúpidas) nucleares na nossa vida. Afinal, o mundo até mudou mas fomos nós quem a ele se obrigou a adaptar; e a energia vai-se esgotando, tanto mais rápido quanto nos deixarmos abater pelos dissabores.
Há um tempo para tudo, de facto. E compreende-lo é importante, embora haja comportamentos capazes de penalizarem realidades colectivas. Devemos ser tolerantes, fazendo compreender a necessidade de mudança; ou intransigentes, agindo condicionados pela necessidade de obtenção do resultado final? Nesta sociedade, será que quem compreende os outros dificilmente será considerado e conquistará sucesso? Aqueles que se compreendem a si próprios, condicionando a realidade envolvente às suas estratégias pessoais, estarão por essa forma mais próximos dos seus objectivos?

Desgostos anunciados

Augusto Semedo, 16.10.08

Não esteve à altura a selecção de futebol contra a Albânia. Portugal apresentou uma equipa jovem, pouco articulada, formada por ex-sub21 que de há três/quatro anos para cá formaram um grupo prometedor, com enormes potencialidades individuais mas com pecados colectivos. Por isso, foram incapazes de ganhar a adversários de topo.

Os suecos, na análise objectiva que fizeram à exibição portuguesa no jogo recente contra a sua selecção, escreveram que os nossos jogadores jogam de cabeça baixa e para si próprios.

Tenho para mim - sem que pretenda discutir méritos futebolísticos e atributos pessoais (indispensáveis para potenciar aqueles...) - que o grupo de jogadores chamados contra a Albânia carece ainda de se afirmar para corresponder entre a elite. Ao contrário do que sugere a intensa e despropositada abordagem pública diária, que promove a imagem e méritos que ainda não possuem, induzindo em erro um país 'futeboleiro' e não de futebol.

Veja-se, a título de exemplo, a narração e os comentários da cadeia de televisão que transmitiu o jogo. Mais deplorável que a qualidade da exibição portuguesa! Portaram-se, simplesmente, como um qualquer espectador de bancada, que por não ter microfone à frente, e sem audiência, tende a utilizar expressões inapropriadas; ou por não ter um entendimento profundo do jogo, é incapaz de interpretar algumas das incidências do mesmo.

Não está em causa a crítica - que é uma das funções da dupla da TVI. A crítica, porém, deve ser alicerçada numa profundidade de análise que habitualmente não existe, por falta de conhecimento e de vivências ou por conveniências mais ou menos perceptíveis. Não deve ser exercida com leviandade, sustentada em subjectividades ou motivada por simples estados de alma. Deve ser equilibrada e exercida com pedagogia. 

Se é exigido que treinador e jogadores não percam a cabeça em todo e qualquer momento, do mesmo modo aos comentadores exige-se que se prepararem melhor (a probabilidade de erro a comentar o que se observa é bem menor que as decisões que se tomam em campo) e sejam objectivos nas apreciações feitas. Porque todos são profissionais!

Um exemplo: quando Hugo Almeida surgiu ao segundo poste, a cabecear sozinho para defesa do guarda-redes albanês, um dos comentadores afirmou não compreender o porquê do avançado se ter deslocado para a esquerda e que o seu lugar deveria ser na área. O que ele não compreendeu (não é tão grave que não saiba, inaceitável é que não o reconheça, limitando-se a narrar o que vê...) foi que o avançado apareceu sem oposição nesse lance - e só nesse em todo o jogo - porque ao mudar a sua zona de acção habitual baralhou as marcações naquela segura e autoritária defesa da Albânia.

Objectivamente, Portugal não jogou bem. Terá havido erros de leitura, desinspiração, falta de criatividade (tão cara aos portugueses) e dinâmica colectiva para ultrapassar um grupo coeso. Terá havido uma selecção nervosa e desconfiada de si própria (quase sempre...), com menos atitude competitiva que era exigida (algumas vezes e/ou em alguns jogadores) e com ausência de uma voz de comando em campo (o chamado líder, que não é Ronaldo) que explica confusão posicional em alguns momentos.

Que se analise objectivamente... se a competência der para isso. Mas que não se ofenda, não se incendeie, não se contribua para o estado pantanoso que - sem que se dê conta devida - está a tornar periclitante o futebol português.

Julga-se que este país tem a melhor selecção mas não é verdade; induz-se que temos os melhores jogadores quando em algumas posições há dificuldades em encontrar alguém que cumpra os requesitos mínimos para uma equipa de topo... Cultiva-se a personalidade, mascarada tantas vezes pelo marketing, enganando gente que nunca se habituou a reflectir sobre o mundo que a rodeia e até julga que Portugal joga sozinho!

Confunde-se o que é técnica relevante para a competição, aquela que conta para defender e para atacar com eficácia. Já agora, quantos cruzamentos fazem os jogadores portugueses bem dirigido a um colega que está na área? E, em circustâncias idênticas, quantos certeiros conseguem ingleses e alemães, os toscos dinamarqueses ou suecos que até marcam presença assídua em fases finais?

Quantas oportunidades de golo precisam de ter os jogadores portugueses para finalizar com êxito? E os outros? Precisarão as selecções daqueles países de tanto tempo de posse da bola, de pressionar tanto, de circular a bola e de promover situações de envolvimento colectivo para criarem situações de finalização e - uma vez criadas - terem o êxito supremo de finalizar?

O campeonato português é hoje, basicamente, uma corrida a três. É uma das provas europeias onde se recorre mais à falta em momentos defensivos. É essa a técnica para defender bem? 

Os jogos entre candidatos ao título são apresentados publicamente a puxar ao dramatismo (o futebol é vida ou é morte?) e a actuação das equipas parte do objectivo primordial de não deixar jogar o adversário (onde está a festa, o prazer, a afirmação pela positiva?).

Há mais momentos de conflito que de qualidade de jogo; evidenciam-se erros de arbitragem e alimentam-se, posteriormente, aparentes más decisões dos treinadores perdedores. Fomenta-se a guerrilha verbal e o descontentamento em jogadores mimados e egocêntricos, que agem tantas vezes influenciados pelo interesse de empresários, fragilizando-se sempre a autoridade do treinador - a inevitável "besta negra" do sistema.

No campeonato do "antes um ponto que a derrota", o treinador não tem estabilidade para desenvolver trabalho de qualidade e em profundidade. A sua continuidade é ditada pelo resultado de cada jogo e a avaliação da sua competência é exercida arbitrariamente, ao sabor de emoções e de motivações, nem sempre claras. Neste contexto, não há espaço para os jovens jogadores, que cada vez menos têm oportunidade de se afirmar. Afinal, o erro não se tolera e também é preciso errar para crescer!

O jogador é feito vedeta precocemente. Cresceu numa lógica que não discute o jogo, as suas virtudes, a sua essência... Numa lógica que apenas potencia o acessório (arbitragens e polémicas estéreis) e a (sua!) imagem. Embora o jogo seja colectivo e o êxito esteja dependente do colectivo.

Quando os jogadores portugueses deixarem de emigrar, pelo menos tanto como agora, Portugal tende certamente a ser uma selecção mediana. Ao nível da Bélgica actual. Deixarão de ter oportunidade para crescer num futebol mais exigente táctica e mentalmente, mais competitivo e mais aberto.

Vamos seguir Quaresma com atenção. Se seguir e obedecer a Mourinho pode tornar-se num grande jogador, de rendimento mais consistente e com uma ideia de colectivo que nunca possuiu; se não, continuará a ser um jogador de números fantásticos mas episódicos, que num futebol competitivo e sério não garante a titularidade. Porque em Itália, como em qualquer país futebolisticamente evoluído, não é aceitável andar a correr atrás dos adversários após perdas sucessivas de bola em tentativas goradas de um colega que não participa em acções defensivas.

Vamos seguir também Miguel Veloso. Para saber que reflexo terá para a sua carreira de jogador a ideia que, de tão falada mas gorada, fez dele nova transferência milionária para um dos clubes que todos os jogadores portugueses desejam representar.

E vamos seguir outros mais... Para poder avaliar o resultado desta relação desequilibrada da sociedade com o futebol, que tão depressa idolatra como vilipendia, elogia como ofende, aplaude como assobia.

Embriaguez colectiva (II)

Augusto Semedo, 30.05.08

O Euro 2004 foi exemplo do nada e do tudo.

Do nada quando, nos anos e meses que antecederam o torneio e Portugal se preparava para o receber, se promoveu o cepticismo a nível organizativo e o pavor da violência. Era tempo das parangonas sobre os atrasos nas construções e dos simulacros realizados pelas forças policiais, com honras de abertura de noticiários.

Do tudo quando, nos dias que antecederam a competição e durante a mesma, se promoveu um ambiente festivo e de confiança que deixou saudades. Era tempo de se esquecerem os problemas organizativos (que os houve...) e de se falar só pela positiva. Os portugueses descobriram a festa, rejubilaram colectivamente com os êxitos, mostraram a sua melhor faceta a quem os visitou, e souberam desvalorizar incidentes pontuais.

Hoje, num país deprimido e apreensivo, a histeria regressou como se o nosso futuro colectivo dependesse de uma selecção. Com um nível de exigência tão perigosamente elevado, veremos como se comportam os histéricos se Portugal não conseguir chegar no 'europeu' ao lugar onde levianamente o querem guindar?

Nota final 1: Na Alemanha, um pequeno país foi 4º. A nação organizadora, com um vasto palmarés e vários títulos conquistados, soube celebrar o 3º lugar como se de um grande feito se tivesse tratado. O pequeno país, que esteve num 'mundial' apenas pela quarta vez e só num deles fez 3º, prestou um tributo envergonhado à comitiva no seu regresso. Quantas vezes mais seremos 4ºs num 'mundial'?

Nota final 2: Alemanha, Itália e outros países habitualmente ganhadores mantêm-se no topo não tanto pela genialidade dos valores individuais mas pelo equilíbrio da equipa e pela qualidade do seu jogo colectivo. Raramente brilham mas preservam uma consistência especialmente táctica e mental. Veremos se Portugal mostra evolução colectiva capaz de confirmar em campo tão altas expectativas. 

Embriaguez colectiva (I)

Augusto Semedo, 30.05.08

Em 1996, quando acompanhei a primeira de uma série consecutiva de presenças de Portugal nos campeonatos mundiais e europeus de futebol (de então para cá, só em 98 não estivemos no 'mundial' de França), pude observar presencialmente como do nada pode dar-se a sensação de muito.

No centro de Nottingham, quando surgiam uma câmara de filmar e os senhores da televisão, os portugueses que se encontravam espalhados pela praça em pequenos grupos convergiam. Juntos, saltavam e 'cantarolavam' mal acendia a luzinha indicadora de que a filmagem começara. Um deles, escolhido ao calha, dizia aquelas coisas sem sentido, em voz ofegante, ao jornalista. O registo de imagem terminava entretanto e todos se afastavam nas várias direcções. A pressuposta euforia acabara como começara. As imagens seriam exibidas num país que julgava viver-se em Inglaterra um clima de permanente festa.

Muita coisa mudou entretanto. A selecção habituou-nos a estar sempre presente e, exceptuando Coreia e Japão, tem-se mantido entre as quatro melhores de cada 'mundial' e 'europeu'. Os portugueses ganharam uma relação afectuosa com a equipa que os representa em eventos tão importantes, especialmente tratando-se de um país pequeno e com dificuldades de afirmação. Os adeptos presentes nos países anfitriões são hoje mais expansivos e unidos, e vestem adereços que os identificam perante os demais.

Depressa passámos à embriaguez colectiva. Do oito para o oitenta. Por orquestração ou simples aproveitamento. Hoje, pelo que se vê, há festa a mais. Ver-se-á mais tarde, a partir de 7 de Junho, se a concentração é de menos.

De Avran Grant à selecção portuguesa

Augusto Semedo, 27.05.08

Avran Grant - Nem sei se é bem assim que se escreve o nome. O homem não é figura simpática. É parcimonioso, talvez em excesso. Como chegou ao Chelsea não sei nem me interessa. As relações que mantinha com Mourinho enquanto conviveram, já numa fase de turbulência interna com reflexos nos resultados da equipa, adivinharam-se sempre difíceis. O ingresso do israelita nos 'blues' indiciava dificuldades internas para o exuberante Mourinho. 

Independentemente da forma como terá entrado, Grant foi capaz de lidar com um balneário dividido entre o apoio, a rejeição e a indiferença à mudança técnica; de ultrapassar as saudades de Mourinho e as desconfianças iniciais; de construir uma equipa igualmente sólida e mais desinibida até nos seus processos ofensivos. Recuperou, de forma notável, o atraso no Campeonato e fez o melhor percurso de sempre para o clube na Liga dos Campeões. E se a presença na final dependeu de pequenos pormenores que deram felicidade ao Chelsea, a fronteira entre o sucesso iminente e o fracasso doloroso diante do afortunado (naquela noite...) e titulado Manchester United teve apenas como responsável único e evidente meras circunstâncias casuais e fortuitas, próprias deste jogo. 

Grant acabou por ser vítima injusta. Como antes tinham sido Raniere e Mourinho. Como a seguir será o próximo.

Treinador que marcou o Chelsea e o futebol inglês como poucos mas nem sempre por razões aplaudidas, Mourinho - independentemente das razões pessoais que lhe possam caber - foi injusto e deselegante ao criticar o seu sucessor. Se ganhou muitas competições, noutras também se ficou pelo quase - e não terá sido por escassez de ambição ou de competência. Simplesmente porque, havendo treinadores 'especiais', nenhum deles é Deus. Como português e admirador das suas qualidades (embora não de forma cega e imprudente...), espero que a Mourinho não lhe aconteça o mesmo que ao homem que o substituiu com sucesso e competência no Chelsea - que um dia acabe despedido apenas porque a sua condição humana não pôde controlar o factor aleatório associado ao jogo.

Selecção - A campanha mediática voltou e os excessos regressam. Que a nossa equipa represente condignamente este país socialmente atormentado, honrando-o e prestigiando-o perante o Mundo. Que revele coesão e ambição, dando vitalidade aos grandes valores morais e volitivos associados à performance desportiva - e exemplos para muitos percursos de vida de cidadãos anónimos. Que promova o orgulho patriótico e continue a ser uma mais valia na promoção de Portugal.

O resto (os objectivos competitivos que lhes são exigidos como se jogássemos sozinhos e fossemos os melhores sem rival) deveria vir em consequência. Mas, definitivamente a ponderação - tendo-a, pode ser-se igualmente ambicioso! - não é connosco...

Os campeões

Augusto Semedo, 05.03.08

Um campeão é, por definição, o vencedor de uma prova desportiva em campeonato. E um campeonato é, também por definição, uma competição desportiva para apurar o melhor dos concorrentes - o campeão.

O campeão não é o indivíduo ou a equipa que fica em primeiro na série dos últimos. Nem quem é primeiro sem haver segundo. Celebrá-lo ou propagandeá-lo é admitir insuficiência e/ou desonestidade intelectual.

Campeões, pelos vistos, têm havido muitos e são cada vez mais. Nem que alguns deles (e não são assim tão poucos como isso...) não tenham adversários para competir consigo. E é fácil: escolhe-se uma modalidade desportiva, ou no próprio desporto uma classe onde a competitividade seja menor ou mesmo inexistente, para se ser o campeão.   

Dê-se os parabéns a tão valorosos, e distintos, desportistas! Como se ganhar ou perder uma competição determinasse, por si só, as qualidades do desportista e do Homem que o suporta. Como se a sua existência, na vida como no desporto, dependesse única e fundamentalmente dos resultados apresentados.

Enquanto assim for, promove-se a cultura da mediocridade. Por isso, é hoje mais difícil construir-se e consolidar-se realidades fortes, verdadeiramente marcantes pelo grau de exigência e pelos níveis de organização que envolvem, e também pela superior valorização que promovem no indivíduo e na comunidade.

O mérito existe sempre que há esforço e principalmente superação; e também a ambição legítima da afirmação através do desporto. Porém, há diferentes dimensões do êxito. 

Conto uma história, verídica e com alguns anos. De uma equipa que havia participado num Campeonato do Mundo. Chegados à terra, provenientes de um país distante, foram recebidos com pompa e circunstância pelo seu clube e pelas entidades oficiais convidadas para o momento comemorativo. Traziam consigo a áurea de um resultado notável para um Mundial: o 8º lugar!

Esqueceram-se foi de dizer que havia apenas oito equipas concorrentes e que os falsos heróis perderam para a sétima classificada tanto tempo (15 minutos) como a sétima para os campeões do Mundo. 

No meu tempo é que era?

Augusto Semedo, 28.02.08

Nos anos 80, quando comecei com esta doidice de ser treinador de futebol, a prática desportiva não estava tão generalizada. Muitos rapazes eram impedidos pelos seus progenitores, iniciava-se a formação mais tarde, não havia tantos clubes nem tantos agentes, mais ou menos qualificados, a enquadrar a actividade.

O mundo era mais acanhado; os jovens, mais atentos, tinham pouco por onde se dispersar. Os estímulos eram escassos, a vida mais pacata, as condições rudimentares e os clubes uma oportunidade para abrir horizontes que de outro modo se revelavam inacessíveis.

A realidade, 23 anos passados, mudou profundamente. Os pais acompanham mais, intrometem-se demais, preocupam-se com tudo, pressionam, exigem... Os jovens, mais conhecedores do mundo, têm hoje um andamento grande; o mundo está à distância de estímulos constantes e variados; as condições de vida melhoraram consideravelmente; os clubes da terra perderam peso mas recebem mais praticantes, estão genericamente melhor organizados e têm uma logística mais cuidada...

A televisão tem profunda influência. Mais, muitas vezes, que os treinadores. Dantes, ensinava-se e o atleta procurava interpretar, seguindo as indicações e concentrando-se nas suas tarefas. Poucos jogos eram transmitidos, os treinadores menos contestados, os jogadores menos idolatrados...

Hoje, a tendência é para que sejam seguidos, inocentemente, modelos que a televisão potencia. Com o objectivo de vender o produto (ou de se viver à custa dele...), releva-se o indivíduo em vez de se valorizar o colectivo; o treinador passou a ser o elo mais desprotegido de uma imensa cadeia de interesses - ele é o burro, o gajo que nunca acerta, apesar de ser ele quem trabalha todos os dias com os seus jogadores e de ter formação para exercer as suas responsabilidades -; os erros de arbitragem sobrepõem-se à apreciação crítica sobre o jogo; a ética está subjugada à obsessão do sucesso...

Esta "cultura" imposta pelo mundo adulto é apreendida pelos jovens praticantes. Hoje mais difíceis de satisfazer e mais exigentes, permanentemente atordoados com múltiplas iniciativas e oportunidades.

Os tempos são diferentes e os jovens de hoje igualmente diferentes. No meu tempo é que era? Errado! Naquele tempo, a ausência do futebol não era compensada com outras actividades e praticá-lo significava estatuto e uma oportunidade; hoje, quem não quiser o futebol tem muito com que se entreter e onde se perder.

Numa sociedade mais egocêntrica, ter tanta gente a praticar uma modalidade colectiva enquanto cresce numa lógica de individualismo, demonstra que este tempo, sendo bem diferente, também é!  

Construir resistindo ao miserabilismo

Augusto Semedo, 20.02.08

Num clube, o treinador saiu. Treinava um escalão jovem e era constantemente desautorizado pelo dirigente, curiosamente pai de um jogador habitualmente suplente. O copo transbordou quando, antes de um jogo, o treinador tinha a equipa definida no quadro, em frente aos jogadores, e o director chegou, desfez o 'onze', definindo outro.

Num outro clube, foi recebido com entusiasmo um convite para os seus jogadores irem assistir a um evento desportivo. Dificilmente recusável para quem se identifica com o promotor do convite. Em consequência, uma equipa faltou ao seu compromisso - o jogo nesse mesmo dia -, perdendo-o administrativamente por número insuficiente de jogadores.

Estes casos são falados à boca pequena. Há clubes assim, que quando são falados são-no apenas por bons motivos.

Mas, há casos em que assim não é. Onde tudo é motivo de dúvida, de murmúrio, de boatos, de insinuações... Por mais coerência que haja, por mais cuidados que se tenham num turbilhão de interesses e conveniências, dentro e especialmente fora.

Nuns casos, as dificuldades são minimizadas e os erros desvalorizados, sobrando atenção para o lado (bem positivo...) das acções empreendidas; noutros, a realidade que gravita à sua volta promove precisamente o inverso, transportando consigo uma conveniente (para alguns) carga negativa.

Hoje, em muitos ambientes, quem tenta construir não se concentra apenas na sua tarefa; resiste ao miserabilismo que ameaça transformar instituições prestigiadas em realidades menores, insuficientes e descaracterizadas, sujeitas a interesses múltiplos, circunstanciais e desencontrados. 

Desafios de um jogo

Augusto Semedo, 27.12.07

Esta não é uma história perfeita. Dificilmente será a história sonhada na infância. Mas é uma história real! Como todas elas, feita de momentos altos e de outros que nos ajudam a crescer ainda mais, a ver hoje o Mundo diferente, a ser agora melhores Cidadãos.

O futebol - este mundo que junta à volta de objectivos comuns tantas personalidades peculiares e tão diversas maneiras de interpretar os infindáveis acontecimentos que o rodeia -, tem, como poucas realidades, esse poder. É uma verdadeira escola para a vida!
Recheado de momentos mágicos e outros de desencanto, momentos de comunhão mas também de desencontros. Promove sentimentos diversos e mesmo contraditórios. É exigente nas rotinas diárias, na competição, nas relações interpessoais! Desperta competências adormecidas, estimula no desportista qualidades morais e manifestações de vontade que o cidadão pode aproveitar para a vida – na sua vivência familiar, profissional e comunitária.
O jogador a quem me dirijo neste escrito assinou o seu percurso futebolístico porque foi capaz de reunir um conjunto de pressupostos nucleares ao crescimento e ao rendimento de um atleta, potenciadores de competências necessárias à boa prática do jogo:
Sentir o que faz! = identificação com o jogo, com a equipa, com o clube…
Gostar do que faz! = prazer, dedicação, empenhamento…
Concretizar o que faz! = vontade, superação… capacidade de trabalho!
Saber estar! = boa relação com colegas e respeito pelas normas e regras de grupo, contribuindo para um bom ambiente e espírito de equipa.
O jogo nunca foi um problema mas uma oportunidade. Os desafios, momentos de afirmação pessoal e da equipa!
Há posturas e atitudes que ficam especialmente guardadas nas recordações do nosso percurso. Ainda hoje, aos atletas mais novos que procuramos orientar para o futebol e para a vida, há exemplos evidenciados.
Um deles é o dele, já júnior. Conto aos mais novos o que a ele era exigido para vir treinar e recolher de imediato ao colégio, onde era aluno interno, antes da hora estabelecida para o fazer. Que a mãe o ia buscar ao estádio, com o jantar na marmita, para ele poder comer enquanto o conduzia. Ele não faltava, não pedia para sair mais cedo, não deixava de dar o seu melhor. Limitava-se a cumprir como todos os outros, não alimentando excepções, ajustando-se à realidade e às regras estabelecidas.
Este exemplo ajuda a compreender porque cresceu ele tanto nas últimas etapas da sua formação – e depois, já sénior, porque confirmou e desenvolveu novas competências, chegando onde muitos outros poderiam e/ou desejariam.
A vida continua. Renovam-se projectos. Esta é também uma história incompleta…
excertos do prefácio para o livro de um amigo