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d'aquém e d'além

COISAS E COISINHAS DO NOSSO MUNDO augusto semedo

d'aquém e d'além

COISAS E COISINHAS DO NOSSO MUNDO augusto semedo

Sociedade sem respostas para os monstros que criou

Augusto Semedo, 29.08.08

 

A PJ entrou em campo no caso dos quatro autocarros incendiados em Albergaria-a-Velha. No interior do Centro Coordenador de Transportes, novo acto de vandalismo - supõe-se - terá sido praticado por jovens. Testemunhas afirmam que se trata de gente com idades entre 18 e 25 anos. Talvez até já referenciados pelas autoridades policiais. Mas, continuam na rua a atentar contra o bem comum.

Não há Estado nem Instituição Social que trate desta gente. Mais do que condenar a uma exclusão ainda maior, que seja capaz de permitir a sua reabilitação.

Não terá sido "esta" sociedade a criar monstros disponíveis para as mais díspares atrocidades praticadas contra pessoas e bens? E que respostas tem ela agora para fazer face a esta onda de insegurança e desconforto moral? 

Do CCT de Albergaria à ER de Águeda - até quando?

Augusto Semedo, 29.08.08

Enquanto Albergaria se insurge contra a degradação de uma infra-estrutura construída há 19 anos, Águeda espera resignada a construção de uma estação rodoviária (o seu Centro Coordenador de Transportes…) reclamada seguramente há três décadas.

Se o CCT de Albergaria reflecte um pouco do que se passa pelo país – não basta construir, é preciso zelar pelos novos equipamentos -; a inexistência de uma estação rodoviária adequada e funcional em Águeda mostra a incapacidade dos poderes públicos resolverem problemas sentidos há muito.

Se o então moderno e funcional equipamento de Albergaria é vítima de um certo modo de estar na vida (atracção pela destruição…) com que alguns vão manifestando ausência de sentido cívico e um espírito miserabilista; a anacrónica e degradante estação rodoviária de Águeda enfrenta, entre outros problemas, questões de segurança que só não estarão mais expostas porque ainda não morreu ali gente.

Se o CCT de Albergaria (agora abandonado…) mereceu honras de inauguração, com o inevitável desfile de figuras proeminentes da época; a almejada ER de Águeda vai originando negociações tão complicadas, mas tão complicadas, que apodrecem antes do fruto.

Falta brio e consistência em sociedade de pompa e circunstância.

 

Nota: Este texto tem alguns meses. Foi escrito a propósito de um trabalho jornalístico de José Manuel Alho sobre a degradação do CCT de Albergaria, publicado nas páginas do RA. Republico-o na sequência dos actos de vandalismo verificados esta semana naquele local - que chegaram ao que julgamos ser o extremo. O texto manter-se-á actual até quando?

O aeroporto e férias com diferentes sentidos

Augusto Semedo, 17.07.08

O comboio, no preciso momento em que escrevo, passa sobre o Douro, esse rio imponente que eu vira ainda há pouco, serpenteante a entrar em território português e vigoroso a descer até à foz, desde a janelinha do avião. A viagem de Valência ficara para trás. Bati, novamente, o recorde do voo mais barato – e disso mesmo faço gala.

O monstro vinha cheio, como sempre. Quase duas centenas. A meu lado, certamente havia passageiros que tiveram de desembolsar os quase 200 euros a que estava a tarifa (só de ida…) na semana anterior à da viagem. Pelo contrário, a minha (ida e volta) ficou-se pelos 38 euros, tudo incluído (taxas e afins).
Adiante… para confessar algo que me deixa triste sempre que utilizo o Francisco Sá Carneiro (FSC), considerado em 2007 o melhor aeroporto da Europa: a sua reduzida utilização. As obras mudaram-no completamente, é hoje um equipamento moderno, funcional e possuidor de capacidades por explorar. Falta-lhe movimento!
A Ota, também por isso, seria uma aberração. O investimento, ainda recente, no Porto precisa de ser rentabilizado, não de concorrência que o tornaria ainda mais periférico.
Também não se entende as dificuldades que – dizem – se vão criando a empresas que pretendem fazer do FSC uma plataforma de rotas aéreas.
O acréscimo do número de passageiros traria vantagens. Para a própria estrutura e para toda a região. Barcelona, a grande Barcelona, faz isso…
E, para nós, a oferta seria ainda maior. Aproximava-se da que já é oferecida a outros cidadãos europeus. Daqueles que não sabem a desvantagem de viver na periferia; nem de se haver com práticas hegemónicas e estranguladoras de empresas ou interesses corporativos.
Subitamente, a pacatez da composição em que sigo foi interrompida. Em Espinho, um ruidoso grupo de crianças tirou-me a concentração. Até Cacia não mais houve descanso. São experiências que dão um outro sentido às férias. Afinal, quantas delas terão ido alguma vez a Espinho? E há quantos anos não me metia eu num comboio que-pára-em-todas-as-estações-e-apeadeiros?

Do CCT de Albergaria à ER de Águeda

Augusto Semedo, 30.06.08

Enquanto Albergaria se insurge contra a degradação de uma infra-estrutura construída há 19 anos, Águeda espera resignada a construção de uma estação rodoviária (o seu Centro Coordenador de Transportes…) reclamada seguramente há três décadas.

Se o CCT de Albergaria reflecte um pouco do que se passa pelo país – não basta construir, é preciso zelar pelos novos equipamentos -; a inexistência de uma estação rodoviária adequada e funcional em Águeda mostra a incapacidade dos poderes públicos resolverem problemas sentidos há muito.

Se o então moderno e funcional equipamento de Albergaria é vítima de um certo modo de estar na vida (atracção pela destruição...) com que alguns vão manifestando ausência de sentido cívico e um espírito miserabilista; a anacrónica e degradante estação rodoviária de Águeda enfrenta, entre outros problemas, questões de segurança que só não estarão mais expostas porque ainda não morreu ali gente.

Se o CCT de Albergaria (agora abandonado…) mereceu honras de inauguração, com o inevitável desfile de figuras proeminentes da época; a almejada ER de Águeda vai originando negociações tão complicadas, mas tão complicadas, que apodrecem antes do fruto.

Falta brio e consistência em sociedade de pompa e circunstância.

Embriaguez colectiva (II)

Augusto Semedo, 30.05.08

O Euro 2004 foi exemplo do nada e do tudo.

Do nada quando, nos anos e meses que antecederam o torneio e Portugal se preparava para o receber, se promoveu o cepticismo a nível organizativo e o pavor da violência. Era tempo das parangonas sobre os atrasos nas construções e dos simulacros realizados pelas forças policiais, com honras de abertura de noticiários.

Do tudo quando, nos dias que antecederam a competição e durante a mesma, se promoveu um ambiente festivo e de confiança que deixou saudades. Era tempo de se esquecerem os problemas organizativos (que os houve...) e de se falar só pela positiva. Os portugueses descobriram a festa, rejubilaram colectivamente com os êxitos, mostraram a sua melhor faceta a quem os visitou, e souberam desvalorizar incidentes pontuais.

Hoje, num país deprimido e apreensivo, a histeria regressou como se o nosso futuro colectivo dependesse de uma selecção. Com um nível de exigência tão perigosamente elevado, veremos como se comportam os histéricos se Portugal não conseguir chegar no 'europeu' ao lugar onde levianamente o querem guindar?

Nota final 1: Na Alemanha, um pequeno país foi 4º. A nação organizadora, com um vasto palmarés e vários títulos conquistados, soube celebrar o 3º lugar como se de um grande feito se tivesse tratado. O pequeno país, que esteve num 'mundial' apenas pela quarta vez e só num deles fez 3º, prestou um tributo envergonhado à comitiva no seu regresso. Quantas vezes mais seremos 4ºs num 'mundial'?

Nota final 2: Alemanha, Itália e outros países habitualmente ganhadores mantêm-se no topo não tanto pela genialidade dos valores individuais mas pelo equilíbrio da equipa e pela qualidade do seu jogo colectivo. Raramente brilham mas preservam uma consistência especialmente táctica e mental. Veremos se Portugal mostra evolução colectiva capaz de confirmar em campo tão altas expectativas. 

Embriaguez colectiva (I)

Augusto Semedo, 30.05.08

Em 1996, quando acompanhei a primeira de uma série consecutiva de presenças de Portugal nos campeonatos mundiais e europeus de futebol (de então para cá, só em 98 não estivemos no 'mundial' de França), pude observar presencialmente como do nada pode dar-se a sensação de muito.

No centro de Nottingham, quando surgiam uma câmara de filmar e os senhores da televisão, os portugueses que se encontravam espalhados pela praça em pequenos grupos convergiam. Juntos, saltavam e 'cantarolavam' mal acendia a luzinha indicadora de que a filmagem começara. Um deles, escolhido ao calha, dizia aquelas coisas sem sentido, em voz ofegante, ao jornalista. O registo de imagem terminava entretanto e todos se afastavam nas várias direcções. A pressuposta euforia acabara como começara. As imagens seriam exibidas num país que julgava viver-se em Inglaterra um clima de permanente festa.

Muita coisa mudou entretanto. A selecção habituou-nos a estar sempre presente e, exceptuando Coreia e Japão, tem-se mantido entre as quatro melhores de cada 'mundial' e 'europeu'. Os portugueses ganharam uma relação afectuosa com a equipa que os representa em eventos tão importantes, especialmente tratando-se de um país pequeno e com dificuldades de afirmação. Os adeptos presentes nos países anfitriões são hoje mais expansivos e unidos, e vestem adereços que os identificam perante os demais.

Depressa passámos à embriaguez colectiva. Do oito para o oitenta. Por orquestração ou simples aproveitamento. Hoje, pelo que se vê, há festa a mais. Ver-se-á mais tarde, a partir de 7 de Junho, se a concentração é de menos.

Rotas pelo interior

Augusto Semedo, 30.04.08

Mais adiante, em terras de Idanha, surge-nos Penha Garcia na encosta. Sobe-se ao castelo e desce-se pelo lado oposto para cumprir a Rota dos Fósseis. A paisagem muda num ápice. Faz-se a caminhada por aquele vale escarpado. A barragem ao fundo, com águas que abastecem todo o concelho. Os achados, os moinhos e a casa do moleiro. A natureza que nos envolve.

Monsanto a dois passos; Idanha-a-Velha a outros tantos. A imponência do monte, sempre presente naquela imensa terra raiana, faz-nos sentir minúsculos perante os sortilégios da natureza. E as ruas estreitas e íngremes que nos levam, por entre casas graníticas, ao castelo, fazem-nos suar de esforço, admirando a arquitectura popular que constitui aquele núcleo urbano. Lá no alto, a paisagem seduz e convida à serena contemplação.

Na velha Idanha, a primeira Sé católica da ibéria numa das mais antigas povoações, antes conhecida por Egitânia. Por entre achados romanos e de vários períodos da sua imensa história, a recuperação do lagar de azeite e o pão quente a sair do forno comunitário...

Motivações não faltam. Este Portugal merece também ser promovido, dando-se a conhecer ao mundo exterior!  

Este Portugal recôndito e diferenciado...

Augusto Semedo, 30.04.08

Na Covilhã, não apenas jovens fervilhavam o centro da cidade naquela noite subitamente quente.

Em Belmonte, descobri como municípios do interior dão hoje uma cuidada valorização ao valioso património histórico e arquitectónico que herdaram, E como se organizam de forma mais profissional para que o turismo minore os efeitos da desertificação.

Em Sortelha, no seu interior granítico e muralhado, esconde-se uma das belíssimas aldeias históricas recuperadas e uma pequena população à espera que os visitantes façam acreditar que há futuro ali.

Este Portugal recôndito e diferenciado, distante de destinos que assumem privilégios de promoção, tem muito para oferecer. É um Portugal recuperado que convida a uma visita. Um Portugal de ritmo sereno, de paz interior. Que desperta e cria atractivos novos para que seja descoberto e igualmente valorizado.

Os campeões

Augusto Semedo, 05.03.08

Um campeão é, por definição, o vencedor de uma prova desportiva em campeonato. E um campeonato é, também por definição, uma competição desportiva para apurar o melhor dos concorrentes - o campeão.

O campeão não é o indivíduo ou a equipa que fica em primeiro na série dos últimos. Nem quem é primeiro sem haver segundo. Celebrá-lo ou propagandeá-lo é admitir insuficiência e/ou desonestidade intelectual.

Campeões, pelos vistos, têm havido muitos e são cada vez mais. Nem que alguns deles (e não são assim tão poucos como isso...) não tenham adversários para competir consigo. E é fácil: escolhe-se uma modalidade desportiva, ou no próprio desporto uma classe onde a competitividade seja menor ou mesmo inexistente, para se ser o campeão.   

Dê-se os parabéns a tão valorosos, e distintos, desportistas! Como se ganhar ou perder uma competição determinasse, por si só, as qualidades do desportista e do Homem que o suporta. Como se a sua existência, na vida como no desporto, dependesse única e fundamentalmente dos resultados apresentados.

Enquanto assim for, promove-se a cultura da mediocridade. Por isso, é hoje mais difícil construir-se e consolidar-se realidades fortes, verdadeiramente marcantes pelo grau de exigência e pelos níveis de organização que envolvem, e também pela superior valorização que promovem no indivíduo e na comunidade.

O mérito existe sempre que há esforço e principalmente superação; e também a ambição legítima da afirmação através do desporto. Porém, há diferentes dimensões do êxito. 

Conto uma história, verídica e com alguns anos. De uma equipa que havia participado num Campeonato do Mundo. Chegados à terra, provenientes de um país distante, foram recebidos com pompa e circunstância pelo seu clube e pelas entidades oficiais convidadas para o momento comemorativo. Traziam consigo a áurea de um resultado notável para um Mundial: o 8º lugar!

Esqueceram-se foi de dizer que havia apenas oito equipas concorrentes e que os falsos heróis perderam para a sétima classificada tanto tempo (15 minutos) como a sétima para os campeões do Mundo. 

Os alertas da Sedes

Augusto Semedo, 26.02.08

Saúda-se a intervenção da Sedes, no final da última semana, no diagnóstico que fez do país. Num momento de empalidecimento do exercício de cidadania em Portugal e quando não são tidos em conta os contributos possíveis para enfrentar os reais problemas da sociedade.

Já se sabia que o documento da Sedes não seria bem recebido pelos responsáveis governamentais - cujo discurso irrealista voltou esta semana a ser contrariado por estudos insuspeitos de Bruxelas sobre a pobreza nas crianças.

Trata-se, de facto, de um abrir olhos. De uma pedrada no charco no conformismo que mina uma sociedade rendida à inevitabilidade do seu fado. É, enfim, a confirmação pública do que todos vão sentindo à sua volta: o "mal-estar difuso", a "degradação da confiança dos cidadãos nos representantes partidários", a "presença asfixiante" do Estado em toda a sociedade, o "estado de suspeição generalizada"... A criminalidade que aumenta - "crescente ousadia dos criminosos" - em contraponto com "uma espécie de fundamentalismo ultrazeloso, sem sentido de proporcionalidade ou bom senso" em alguns actos praticados pelo Estado; as situações de desconfiança decorrentes de "duvidosas articulações com interesses privados"... O que se sente e diz à boca pequena!

O alerta de que poderá haver uma "crise social de contornos difíceis de prever" deve ser levado a sério. Muito a sério. O momento é de descrença na estrutura democrática tal como vem sendo utilizada e de desacreditação nos líderes. O "vácuo" existe já, com o abstencionismo e a indiferença crescente; e para que emirjam as "derivas populistas, caciquistas e personalistas" só falta mesmo que se acentue a tendência de pobreza que alastra por todo o território luso e que não se vejam resultados das políticas que o governo diz que vai concretizando.

Alertas destes não devem ser desmentidos ou ignorados, não merecem ser menorizados ou esquecidos. Os seus autores não devem ser vistos como agitadores quando a participação cívica, deficitária, podia ser estimulada e vista como uma mais valia na ambição colectiva de um melhor futuro. 

Seria oportuno que estes alertas desencadeassem uma atitude reflexiva que conduzisse, por sua vez, à criação de políticas que fossem ao encontro das necessidades dos cidadãos. Apelando, talvez, a práticas inovadoras e verdadeiramente mobilizadoras.

Para isso, é preciso "mobilizar os talentos da sociedade para uma elite de serviço". Mas também mudar mentalidades. Em partidos fracturantes, com presença "dominadora, a ponto de asfixiar a sociedade", e virados para os seus interesses e não tanto para a causa pública, será talvez impossível.