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d'aquém e d'além

COISAS E COISINHAS DO NOSSO MUNDO augusto semedo

d'aquém e d'além

COISAS E COISINHAS DO NOSSO MUNDO augusto semedo

A fome é negra

Augusto Semedo, 17.09.07

Regressava com saudades. Sobretudo da comida. A viagem havia sido longa, por toda a França e Espanha, horas de cumplicidade com o automóvel. O calor apertava mas o desejo era mesmo vir almoçar a Portugal.

Passaria pouco das duas da tarde. Área de serviço, a primeira do país. À mesa, funcionários falavam alto, gracejando vidas alheias. O único cliente era eu. Do lado de dentro do balcão, uma jovem atendeu-me, mostrando o que restava ainda quente no self-service.

De repente, a seu lado, surgiu o homem que seria o seu chefe. A jovem, com um sorriso envergonhado, parou de me servir. O homem encheu o seu prato. - A fome é negra! A fome é negra!..., vociferou.

Esperei. Não sei como, nada disse. Fui servido, paguei, almocei e saí. Na sala, além de mim, só os funcionários. A falarem alto e da vida alheia.

Dois anos depois, repeti para logo me arrepender e sair. Um casal alemão tinha a sua primeira experiência em português. Ao balcão, esperavam pacientemente que a única funcionária presente os atendesse. Ela, de costas para os clientes, mantinha a cabeça dentro do postigo que dava para a cozinha. Fazia algo, provavelmente uma sandes. Vagarosamente...

Os alemães perderam a paciência e saíram. Voltaram a meter-se no Audi, a caminho do litoral. Esperando certamente que a próxima experiência no país que visitavam fosse mais agradável.