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d'aquém e d'além

COISAS E COISINHAS DO NOSSO MUNDO augusto semedo

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COISAS E COISINHAS DO NOSSO MUNDO augusto semedo

O menino que organizava corridas

Augusto Semedo, 30.08.07

Praia de Mira, uma visita mais. Surgem recordados momentos vividos na infância e na adolescência. Férias passadas em família. Num Portugal tão diferente, ingénuo e pobre... afastado do Mundo!

A povoação cresceu para norte mas a praia está igual. Só os esporões anunciam o avanço do mar... Reconheço ainda a viela que dava para a mesmíssima casa de todos os anos, em Setembro; ou o parque onde foi feita a adaptação ao campismo quando as férias passaram para Agosto. A renda era mais cara e acampar sempre ficava mais em conta.

A barrinha também pouco mudou. Talvez só a água; há 30 anos via-se o fundo da lagoa. Há coisas que ficaram iguais. Recordo um programa em directo para uma rádio nacional e a crítica ao escasso investimento. Dizia-se que Mira (a vila, sede de concelho) temia que a Praia a suplantasse. 

Olho o parque em frente. O mesmo supermercado por entre vegetação rasteira, os mesmos balneários, a mesma entrada. Uma ou outra beneficiação pontual. Como fora possível um rapaz de 13 e 14 anos organizar uma prova de atletismo pelas ruas daquele parque? Bermas apinhavam-se de veraneantes que, nessa manhã, trocavam a praia para assistirem às corridas.

Autorização pedida (quem a daria mesmo?), anunciava o evento aos microfones da instalação sonora e abria inscrições. No dia e horas determinados, instalava-me com uma mesinha, uma resma de papel de mercearia e uma esferográfica junto à recepção. Apareciam interessados de todas as idades. Apresentavam comprovativo, ora essa! Havia prémios mas não recordo já como eram adquiridos. E tudo corria...

Recebi, no segundo ano da iniciativa, os préstimos de um professor de educação física da zona de Coimbra. Oferecera-se para me auxiliar. Mas - estranho, não é? - o rapaz era quem determinava todos os pormenores organizativos.

Uma vez, o recepcionista, um estudante universitário em trabalho temporário, protestou. Não percebia porque só se podia participar até aos 18 anos e dos 20 e tal para cima. Ele, e todos os da sua idade, ficavam de fora. Não sei como lhe respondi; não lhe revelei certamente o motivo verdadeiro. O menino via-os como potenciais agentes destabilizadores, causadores de problemas, naqueles confusos anos que se seguiram ao 25 de Abril.

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