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d'aquém e d'além

COISAS E COISINHAS DO NOSSO MUNDO augusto semedo

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COISAS E COISINHAS DO NOSSO MUNDO augusto semedo

Novas auto-estradas: Águeda e as populações ficam a ganhar?

Augusto Semedo, 29.10.08

Anda por aí grande alvoroço com o estudo prévio da nova auto-estrada, que substituirá o actual IC2.

Queríamos todos, e justificadamente, uma ligação menos penosa a Coimbra e à A1 quando nos dão uma nova auto-estrada. A bem feitoria seria bem recebida se não houvesse lugar ao pagamento de portagens.

Afinal de contas, uma variante ao actual IC2 - sem entradas particulares nem cruzamentos, sem semáforos nem rotundas, e sem limites de velocidade, em alguns casos ridículos - seria suficiente. Mas o Estado vai dar-nos três auto-estradas praticamente paralelas, embora com custos para o utilizador.

É caso para perguntar, porque é legítimo fazê-lo: Águeda e as populações vão ficar a ganhar?

Águeda vai deixar de ter variante, aquela que reclamou há décadas e que viu ser satisfeita já neste século. Por essa Europa fora, o trânsito foi desviado do centro urbano das cidades com a construção de variantes; mas, pelos vistos, vai haver uma inversão completa e o ilógico irá prevalecer. A menos que o troço próximo da cidade fique isento do pagamento de portagens (o que acontece, por exemplo, com a A8 nas Caldas da Raínha e em Óbidos). Caso não aconteça, quem não quiser, ou não puder, pagar portagens passará a transitar de novo pelo centro urbano de Águeda. Será isto evolução? Será Águeda, de facto, beneficada pela nova auto-estrada? Afinal, queríamos tão só uma ligação mais rápida, liberta de estrangulamentos, em direcção a Coimbra!

Mais a Norte, a situação de Mourisca do Vouga parece ser ainda mais preocupante: se a nova auto-estrada for portajada e caso seja duplicado o actual IC2 por onde passará o trânsito que não circular pela nova via? Pelo centro da Mourisca? Por aquela estrada que já hoje não tem largura suficiente para o volume de tráfego que por ali circula? Será que resulta em benefício da população local? Ou, por outro lado, serão salvaguardados corredores alternativos, contra o interesse da empresa que irá explorar a auto-estrada? E quem os pagará? O Estado ou as autarquias locais?

Há questões que deveriam ser respondidas quanto antes e preocupações que deveriam ser assumidas pelos cidadãos - que serão, no futuro, as principais vítimas de uma política que irá contribuir para a exclusão de grande parte da população. Num país - tenha-se isso em conta - onde muitos vivem no limiar da pobreza e que não tem um serviço público de transportes eficaz que sirva de alternativa.

Já agora: Partindo do princípio de que os nós de uma auto-estrada não podem ficar próximos uns dos outros, onde irá a população local aceder ao novo IC2?

Verdades e mentiras

Augusto Semedo, 22.10.08

O PIDDAC é um instrumento de verdade ou de mentira? Reflectirá as intenções de investimento do Estado ou não? A confusão está de novo instalada nesta comunidade guerrilheira, disposta a dirimir argumentos em favor das conveniências político-partidárias.

A verdade do PIDDAC é que não há dinheiro para a ambição de fazer obra. Outra verdade é que quando houve, as prioridades terão sido tantas que algumas foram ignoradas em favor das comunidades mais expeditas.
A mentira do PIDDAC é que os políticos vão dizendo que sim a tudo, vão alimentando as ambições das comunidades com promessas de obra futura, que na maioria das vezes se fica pelas intenções. Daí que haja prioridades de décadas: crescemos e vivemos com elas sem que algum dia sejam realizadas.
A verdade é que todos se sentem felizes com obras. Megalómanas ou não, prioritárias ou não. É preciso fazer obras, inaugurar obras… nem que a seguir não se saiba como mantê-las, se assista à sua degradação acelerada.
A mentira é que há obras que não se convertem em mais-valias evidentes. Veja-se, para se falar num caso nacional, o exemplo das SCUT. Sem dinheiro para as construir, o Estado fez parcerias público-privadas e agora não tem dinheiro para as manter. No futuro, as variantes reclamadas por localidades massacradas pelo trânsito passarão a ser auto-estradas com custos para o utilizador; e as antigas estradas nacionais estarão convertidas em vias onde será insuportável transitar.
A verdade é que a mentira entra nos bolsos de cidadãos que ganham mal e passarão a pagar as estradas mais caras da Europa. A verdade é que gostaria, como aguedense, de ter bons acessos aos principais centros urbanos; a mentira é que me estão a impor um futuro oneroso, inacessível a todos aqueles que não conseguirem acompanhar o ritmo do TGV e que se sentirão excluídos num país cada vez mais desigual – que ainda circula, e circulará para todo o sempre, em automotoras rudimentares e em carris mal conservados.     
A verdade é que os políticos passam a vida a vender-nos ilusões, com promessa de obra nova para a qual não há dinheiro; e a verdade é que o povo gosta de viver na ilusão e rejeita a maçada de ter uma postura de reflexão sobre a realidade que o envolve. O resultado desta verdade é que o povo tem os representantes que merece mas será a vítima maior!

Desgostos anunciados

Augusto Semedo, 16.10.08

Não esteve à altura a selecção de futebol contra a Albânia. Portugal apresentou uma equipa jovem, pouco articulada, formada por ex-sub21 que de há três/quatro anos para cá formaram um grupo prometedor, com enormes potencialidades individuais mas com pecados colectivos. Por isso, foram incapazes de ganhar a adversários de topo.

Os suecos, na análise objectiva que fizeram à exibição portuguesa no jogo recente contra a sua selecção, escreveram que os nossos jogadores jogam de cabeça baixa e para si próprios.

Tenho para mim - sem que pretenda discutir méritos futebolísticos e atributos pessoais (indispensáveis para potenciar aqueles...) - que o grupo de jogadores chamados contra a Albânia carece ainda de se afirmar para corresponder entre a elite. Ao contrário do que sugere a intensa e despropositada abordagem pública diária, que promove a imagem e méritos que ainda não possuem, induzindo em erro um país 'futeboleiro' e não de futebol.

Veja-se, a título de exemplo, a narração e os comentários da cadeia de televisão que transmitiu o jogo. Mais deplorável que a qualidade da exibição portuguesa! Portaram-se, simplesmente, como um qualquer espectador de bancada, que por não ter microfone à frente, e sem audiência, tende a utilizar expressões inapropriadas; ou por não ter um entendimento profundo do jogo, é incapaz de interpretar algumas das incidências do mesmo.

Não está em causa a crítica - que é uma das funções da dupla da TVI. A crítica, porém, deve ser alicerçada numa profundidade de análise que habitualmente não existe, por falta de conhecimento e de vivências ou por conveniências mais ou menos perceptíveis. Não deve ser exercida com leviandade, sustentada em subjectividades ou motivada por simples estados de alma. Deve ser equilibrada e exercida com pedagogia. 

Se é exigido que treinador e jogadores não percam a cabeça em todo e qualquer momento, do mesmo modo aos comentadores exige-se que se prepararem melhor (a probabilidade de erro a comentar o que se observa é bem menor que as decisões que se tomam em campo) e sejam objectivos nas apreciações feitas. Porque todos são profissionais!

Um exemplo: quando Hugo Almeida surgiu ao segundo poste, a cabecear sozinho para defesa do guarda-redes albanês, um dos comentadores afirmou não compreender o porquê do avançado se ter deslocado para a esquerda e que o seu lugar deveria ser na área. O que ele não compreendeu (não é tão grave que não saiba, inaceitável é que não o reconheça, limitando-se a narrar o que vê...) foi que o avançado apareceu sem oposição nesse lance - e só nesse em todo o jogo - porque ao mudar a sua zona de acção habitual baralhou as marcações naquela segura e autoritária defesa da Albânia.

Objectivamente, Portugal não jogou bem. Terá havido erros de leitura, desinspiração, falta de criatividade (tão cara aos portugueses) e dinâmica colectiva para ultrapassar um grupo coeso. Terá havido uma selecção nervosa e desconfiada de si própria (quase sempre...), com menos atitude competitiva que era exigida (algumas vezes e/ou em alguns jogadores) e com ausência de uma voz de comando em campo (o chamado líder, que não é Ronaldo) que explica confusão posicional em alguns momentos.

Que se analise objectivamente... se a competência der para isso. Mas que não se ofenda, não se incendeie, não se contribua para o estado pantanoso que - sem que se dê conta devida - está a tornar periclitante o futebol português.

Julga-se que este país tem a melhor selecção mas não é verdade; induz-se que temos os melhores jogadores quando em algumas posições há dificuldades em encontrar alguém que cumpra os requesitos mínimos para uma equipa de topo... Cultiva-se a personalidade, mascarada tantas vezes pelo marketing, enganando gente que nunca se habituou a reflectir sobre o mundo que a rodeia e até julga que Portugal joga sozinho!

Confunde-se o que é técnica relevante para a competição, aquela que conta para defender e para atacar com eficácia. Já agora, quantos cruzamentos fazem os jogadores portugueses bem dirigido a um colega que está na área? E, em circustâncias idênticas, quantos certeiros conseguem ingleses e alemães, os toscos dinamarqueses ou suecos que até marcam presença assídua em fases finais?

Quantas oportunidades de golo precisam de ter os jogadores portugueses para finalizar com êxito? E os outros? Precisarão as selecções daqueles países de tanto tempo de posse da bola, de pressionar tanto, de circular a bola e de promover situações de envolvimento colectivo para criarem situações de finalização e - uma vez criadas - terem o êxito supremo de finalizar?

O campeonato português é hoje, basicamente, uma corrida a três. É uma das provas europeias onde se recorre mais à falta em momentos defensivos. É essa a técnica para defender bem? 

Os jogos entre candidatos ao título são apresentados publicamente a puxar ao dramatismo (o futebol é vida ou é morte?) e a actuação das equipas parte do objectivo primordial de não deixar jogar o adversário (onde está a festa, o prazer, a afirmação pela positiva?).

Há mais momentos de conflito que de qualidade de jogo; evidenciam-se erros de arbitragem e alimentam-se, posteriormente, aparentes más decisões dos treinadores perdedores. Fomenta-se a guerrilha verbal e o descontentamento em jogadores mimados e egocêntricos, que agem tantas vezes influenciados pelo interesse de empresários, fragilizando-se sempre a autoridade do treinador - a inevitável "besta negra" do sistema.

No campeonato do "antes um ponto que a derrota", o treinador não tem estabilidade para desenvolver trabalho de qualidade e em profundidade. A sua continuidade é ditada pelo resultado de cada jogo e a avaliação da sua competência é exercida arbitrariamente, ao sabor de emoções e de motivações, nem sempre claras. Neste contexto, não há espaço para os jovens jogadores, que cada vez menos têm oportunidade de se afirmar. Afinal, o erro não se tolera e também é preciso errar para crescer!

O jogador é feito vedeta precocemente. Cresceu numa lógica que não discute o jogo, as suas virtudes, a sua essência... Numa lógica que apenas potencia o acessório (arbitragens e polémicas estéreis) e a (sua!) imagem. Embora o jogo seja colectivo e o êxito esteja dependente do colectivo.

Quando os jogadores portugueses deixarem de emigrar, pelo menos tanto como agora, Portugal tende certamente a ser uma selecção mediana. Ao nível da Bélgica actual. Deixarão de ter oportunidade para crescer num futebol mais exigente táctica e mentalmente, mais competitivo e mais aberto.

Vamos seguir Quaresma com atenção. Se seguir e obedecer a Mourinho pode tornar-se num grande jogador, de rendimento mais consistente e com uma ideia de colectivo que nunca possuiu; se não, continuará a ser um jogador de números fantásticos mas episódicos, que num futebol competitivo e sério não garante a titularidade. Porque em Itália, como em qualquer país futebolisticamente evoluído, não é aceitável andar a correr atrás dos adversários após perdas sucessivas de bola em tentativas goradas de um colega que não participa em acções defensivas.

Vamos seguir também Miguel Veloso. Para saber que reflexo terá para a sua carreira de jogador a ideia que, de tão falada mas gorada, fez dele nova transferência milionária para um dos clubes que todos os jogadores portugueses desejam representar.

E vamos seguir outros mais... Para poder avaliar o resultado desta relação desequilibrada da sociedade com o futebol, que tão depressa idolatra como vilipendia, elogia como ofende, aplaude como assobia.

Águeda nossa (3) - A água, os Planos e a vontade política

Augusto Semedo, 09.10.08

Os munícipes de Belazaima, Falgarosa e Falgoselhe, lugares serranos do concelho de Águeda, não vão pagar a tarifa da água devido à sua má qualidade: apresenta-se turva, com riscos para electrodomésticos, a roupa ou as tubagens do sistema de distribuição.

A medida municipal destina-se a um universo de 234 consumidores mas apenas 150 têm água ao domicílio.

Os problemas no abastecimento têm sido pontuais: porque o ano é de seca, por ruptura do sistema ou por problemas resultantes de cinzas ou lamas provocadas por incêndios ou enxurradas.

São, porém, cada vez mais gravosos e frequentes, num concelho com recursos hídricos.

Na primeira metade da década de 90, o PDM - Plano Director Municipal - exortava Águeda a aproveitar os seus recursos para consumo próprio e para vender a concelhos vizinhos - que, antecipava o documento, iriam sentir escassez de água e não possuíam os mesmos recursos hídricos.

Pouco ou nada seria feito nessa área e o sistema actual é complexo, antigo e apresenta falhas. É caso para perguntar, mais de 15 anos passados, para que servem os Planos (obrigatórios neste caso...) se a vontade política tem sido estimulada por outro tipo de orientações e se as decisões procuram objectivos de curto prazo, condicionadas por eleições de quatro em quatro anos.

Águeda nossa (2) - O IMI e as tecnologias

Augusto Semedo, 09.10.08

O Imposto Municipal sobre Imóveis foi 'chumbado' na Assembleia Municipal. A maioria PSD (graças aos presidentes de Junta que engrossam a bancada deste partido, pela primeira vez em minoria no executivo camarário) em pouquíssimas ocasiões tem feito prevalecer a sua força neste órgão.

A novidade, agora, é que o presidente da Câmara se vem queixar de que o líder da concelhia social-democrata enviou mensagens por telemóvel, em plena sessão da AM, para que os presidentes de Junta votassem contra a proposta da maioria socialista no executivo municipal.

É caso para dizer que a tecnologia se virou contra um autarca que se tem assumido com vanguardista nesta área.

Mais a sério, é caso para dizer que vem aí um ano turbulento entre os dois partidos, ou não fossem os resultados eleitorais a razão principal da actuação dos partidos na democracia de um Portugal de pensamento único, incapaz de discutir ideias e de ter verdadeiramente um projecto de desenvolvimento em resultado de contributos diversos. 

Águeda nossa (1) - Hugo São Bento Pereira

Augusto Semedo, 09.10.08

O jornal Região de Águeda apresenta, esta semana, uma entrevista com um jovem de 23 anos que, após ter prestado várias provas, preside à AIESEC Portugal. Trata-se da maior organização a nível mundial gerida por estudantes do ensino superior, ou ex-licenciados, presente em 800 universidades e mais de 100 países.

Trata-se de uma oportunidade fantástica, propiciadora de contactos e de experiências capazes de darem uma visão global do nosso mundo e de, assim, potenciarem competências com impacto positivo na sociedade.

Para quem não esqueceu o envolvimento do Hugo no ténis de mesa, durante a adolescência, e a sua passagem, ainda que tímida, pelo futebol, não deixa de reparar no seu rápido crescimento e nos seus fortes atributos como potencial líder. Um orgulho! E a constatação de que, para se ter um trajecto de referência, é preciso querer-se, ter uma atitude de permanente reflexão sobre o que nos rodeia e oferecer à sociedade a sua mais valia intelectual e profissional. Muita sorte...

Sentir Veneza

Augusto Semedo, 04.10.08

A embarcação apinhada de material avançava e recuava naquele estreito canal rodeado de edifícios. À sua frente, encostado, um barco; a seguir, uma ponte obrigava a que os tripulantes - habitualmente dois nos de carga - se baixassem para continuarem a lenta marcha; depois, mais embarcações seguiam destinos diferentes.

Esta, mal avançava, obrigava-se a recuar. A ponte era ainda mais estreita que o canal e não passavam duas em simultâneo; depois, para passarem uma pela outra não poderia estar uma terceira estacionada na borda.

- Oh, não! - parecia dizer a tripulação, que voltava a recuar depois de espreitar, novamente, por debaixo da ponte, uma nova embarcação a surgir em sentido contrário. Sem azedume, tudo feito num ritmo e com um espírito peculiar. Todos parecem conhecer-se bem e de há muito. 

É normal, por exemplo, cumprimentarem-se efusivamente enquanto cruzam embarcações. E os gondoleiros, naquele seu jeito elegante e sereno na condução dos típicos barcos, emitem sons indicativos aos colegas que os seguem pelos labirínticos e apertados canais, avisando-os da existência de uma outra embarcação ao virar da esquina.

É preciso sentir Veneza. Observar o grande canal, onde se cruza todo o tipo de embarcações, por entre intenso tráfego, sem que ninguém estorve a marcha de outro; passear tranquilamente pelas ruas seculares, estreitíssimas e também elas labirínticas, sem a presença de veículos motores; admirar o imenso património histórico, que se estende por todo o núcleo urbano e não se restringe apenas às emblemáticas praça e Catedral de São Marcos (Património da Humanidade) e ponte de Rialto...

E o 'glamour' - escutar grandes obras musicais na praça São Marcos, passear de gôndola pelos canais, saborear uma boa refeição em ambientes acolhedores...

Há mais, numa Veneza onde o barco substitui o carro. Na distribuição postal, em acções de socorro com ambulância, nos transportes públicos, na recolha do lixo... Com a complexidade de recursos materiais e humanos que tal situação exige. Até as esquadras dos 'Carabinieri' dão directamente para os canais, onde os esperam lanchas a partir das quais se deslocam para cumprirem acções policiais. 

Há ainda o mercado, com uma impressionante variedade de peixe e fruta. A indústria do vidro, tradição na ilha de Murano, está bem evidenciada nas ruas de comércio venezianas - que nos apresentam ainda fascinantes máscaras de carnaval, encantadoras criações artesanais que incentivam a uma atenta apreciação.

Fotografar, um hobby de risco?

Augusto Semedo, 04.10.08

Com o gigantismo do estádio Cork em fundo, uma atenciosa senhora de Dublin apressou-se a saber se estava tudo bem ou se precisava de alguma coisa. Em plena Curragd Road, quando recuava na procura do melhor ângulo, estatelei-me na via não sei bem porquê. Ainda este hobby tinha meses...

Um ano depois, enquanto calcorreava um dos percursos pedestres na serra de Açor, fui parar inesperadamente a um silvado. O percalço obrigou-me a voltar atrás, a umas belíssimas quedas de água que já havia apreciado, procurando encontrar solução para os inúmeros vestígios que ardiam pelo corpo todo. Lá continuei...

Agora, foi o lodo a trair-me na borda do canal, enquanto procurava novamente um melhor enquadramento para mais um boneco. Quase provocava um banho nas águas venezianas, levando comigo máquina e objectivas. O inesperado, no penúltimo degrau de uma pequena escadaria de pedra, não deu tempo para pensar. Valeu o instinto de cair para o lado da parede. Ficaram pequenos hematomas e alguns arranhões. E as calças sujas. A máquina protestou, não queria atinar com as melhores definições para as capturas seguintes, mas depois lá perdoou. Afinal, as quedas que mais nos magoam são mesmo aquelas que nos ficam marcadas pelos lodos do dia-a-dia.

Fica, porém, a questão: fotografar será assim tão perigoso?

Os italianos não gostam de tripés!

Augusto Semedo, 04.10.08

Definitivamente, os italianos não gostam de tripés.

Há um ano, em plena Fontana de Trevi (Fonte das Trevas), um gentil polícia municipal não me permitira continuar a registar algumas nocturnas com aquele utensílio precioso para que as fotos não saiam tremidas e com menor nitidez. Dissera-me que era considerada fotografia profissional.

Acatei – que remédio! – pese embora a infindável quantidade de gente que, como eu, fotografava com tripé junto aos principais monumentos da capital italiana.

Desta vez, um ano passado, foi no aeroporto de Treviso, a norte de Veneza, que os italianos embirraram com o meu tripé. Até aí, passara sem qualquer restrição nos apertados controlos que antecedem o momento de cada embarque.

Obrigaram-me, porém, a voltar atrás. A dirigir-me de novo ao check-in e a despachar o precioso instrumento com uma etiqueta de bagagem. Nada de mais… mas lá tinha de ser em Itália, onde me parece que o rigor com a segurança é levado mais a sério que em muitos outros destinos. Ou talvez não… porque às vezes as aparências enganam.