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d'aquém e d'além

COISAS E COISINHAS DO NOSSO MUNDO augusto semedo

d'aquém e d'além

COISAS E COISINHAS DO NOSSO MUNDO augusto semedo

Insensatez, impunidade e esvaziamento da autoridade

Augusto Semedo, 30.08.08

Algures no distrito de Aveiro, um jovem não terá obedecido ao sinal da GNR para parar a marcha da sua motorizada. Fugiu, entrou por um terreno privado e caiu a um poço quase sem protecção, falecendo. Um familiar, questionado por um repórter de televisão, comentou, indignado, que se não o tivessem perseguido ele não teria caído ao poço.

Algures, perto da capital Lisboa, um pai protagoniza um assalto levando consigo o filho de 13 anos. A coisa corre mal, a polícia persegue os assaltantes e - amarguradamente - um dos tiros acerta na criança, que morre. De repente, todos questionam a acção da autoridade; mas ninguém parece importar-se com o essencial: qual é a responsabilidade de um pai, curiosamente cadastrado, que leva um filho menor - futuramente, com tal "rodagem", um experimentado na "arte" - para aquele acto ilícito?

Algures, perto de mim, um jovem, recentemente saído de uma pena de prisão, assalta e agride senhoras. É detido e presente a um juiz. Confessa a autoria dos crimes que lhes são imputados. Pouco depois, sai em liberdade... mas com a obrigatoriedade de se apresentar diariamente no posto da GNR.

Sobrar-lhe-á ainda muito tempo para voltar a assaltar e a esmurrar a cara a outros cidadãos. E talvez para voltar a troçar daqueles que o prenderam e o têm de receber todos os dias por ordem do juiz.

São três casos simples que reflectem porque vamos vivendo neste clima de crescente insegurança. Pequenos exemplos que revelam insensatez, uma quase total impunidade e um perigoso esvaziamento da autoridade.

Que sociedade estamos nós a construir?

Testemunho de vandalismo, exemplo de desmazelo

Augusto Semedo, 29.08.08

As instalações do Centro Coordenador de Transportes de Albergaria testemunham frequentes actos de vandalismo e são exemplo de desmazelo na sua manutenção. Parecem antigas mas têm escassos 19 anos de vida...

Os fatos e gravatas de quem se engalanou para a inauguração deram lugar ao desolador aspecto actual - testemunhado agora por inúmeros cidadãos anónimos, que obrigatoriamente utilizam um espaço, qual sala de visitas para muitos, que devia ser convidativo e é agora inóspito.

Sociedade sem respostas para os monstros que criou

Augusto Semedo, 29.08.08

 

A PJ entrou em campo no caso dos quatro autocarros incendiados em Albergaria-a-Velha. No interior do Centro Coordenador de Transportes, novo acto de vandalismo - supõe-se - terá sido praticado por jovens. Testemunhas afirmam que se trata de gente com idades entre 18 e 25 anos. Talvez até já referenciados pelas autoridades policiais. Mas, continuam na rua a atentar contra o bem comum.

Não há Estado nem Instituição Social que trate desta gente. Mais do que condenar a uma exclusão ainda maior, que seja capaz de permitir a sua reabilitação.

Não terá sido "esta" sociedade a criar monstros disponíveis para as mais díspares atrocidades praticadas contra pessoas e bens? E que respostas tem ela agora para fazer face a esta onda de insegurança e desconforto moral? 

Do CCT de Albergaria à ER de Águeda - até quando?

Augusto Semedo, 29.08.08

Enquanto Albergaria se insurge contra a degradação de uma infra-estrutura construída há 19 anos, Águeda espera resignada a construção de uma estação rodoviária (o seu Centro Coordenador de Transportes…) reclamada seguramente há três décadas.

Se o CCT de Albergaria reflecte um pouco do que se passa pelo país – não basta construir, é preciso zelar pelos novos equipamentos -; a inexistência de uma estação rodoviária adequada e funcional em Águeda mostra a incapacidade dos poderes públicos resolverem problemas sentidos há muito.

Se o então moderno e funcional equipamento de Albergaria é vítima de um certo modo de estar na vida (atracção pela destruição…) com que alguns vão manifestando ausência de sentido cívico e um espírito miserabilista; a anacrónica e degradante estação rodoviária de Águeda enfrenta, entre outros problemas, questões de segurança que só não estarão mais expostas porque ainda não morreu ali gente.

Se o CCT de Albergaria (agora abandonado…) mereceu honras de inauguração, com o inevitável desfile de figuras proeminentes da época; a almejada ER de Águeda vai originando negociações tão complicadas, mas tão complicadas, que apodrecem antes do fruto.

Falta brio e consistência em sociedade de pompa e circunstância.

 

Nota: Este texto tem alguns meses. Foi escrito a propósito de um trabalho jornalístico de José Manuel Alho sobre a degradação do CCT de Albergaria, publicado nas páginas do RA. Republico-o na sequência dos actos de vandalismo verificados esta semana naquele local - que chegaram ao que julgamos ser o extremo. O texto manter-se-á actual até quando?

...E o santo terá perdoado?

Augusto Semedo, 14.08.08

A emoção ainda toma conta de quem viveu a gloriosa jornada de Peniche, em 5 de Junho de 1983. Principalmente daqueles que conheceram a realidade reluzente de um clube em processo de afirmação, de direcções empenhadas e responsáveis, de estruturas competentes e dinâmicas e de uma comunidade que se revia nas façanhas de um seu embaixador.

Foi há 25 anos! O momento que procuramos recordar traduz muito mais que o simples sucesso desportivo.

Seguem-se neste blog quatro peças de um mesmo texto, intitulado "...E o santo terá perdodado?", publicado na edição de 15 de Agosto de 2008 no jornal Região de Águeda (páginas 24 e 25)

...E o santo terá perdoado? (IV) - O carnaval da subida

Augusto Semedo, 14.08.08

A imensa caravana ague­dense seria fustigada por um tão inesperado quanto intenso temporal. No supermercado local, perto do velhíssimo campo do Baluarte, o plástico esgotou. E, se mais houvesse, esgotava na mesma. Serviu para proteger o corpo das fortes chuvadas da tarde.

Nem isso esfriou a euforia de quem queria participar naquele histórico momento, não importando se o corpo estava seco ou molhado.

O jogo foi correndo de feição e a subida do Recreio nunca esteve verdadeiramente em perigo. A poucos minutos do final, um conhecido aguedense olhava para o relógio e dizia no seu jeito característico: “Faltam 10 minutos para ver o meu Sporting em Águeda!”

No final, imediato à conversão do penalti do 5-2, deu-se a invasão pacífica do velho e encharcado “pelado”. Seguiram-se as habituais cenas de triunfo, o champanhe por entre lágrimas de alegria e a certeza de que Águeda, finalmente, estava no escalão máximo do futebol português.

O regresso foi lindo. Perfeito. O “carnaval” aguedense foi vitoriado pelos adversários. Primeiro, em Peniche: - “Vamos assistir à festa, o Águeda merece!”, dizia um habitante local. Depois, no regresso a Águeda.

Entre Peniche e as Caldas, vários populares, ao lado da estrada, associaram-se à imensa alegria aguedense. Nas Caldas, o clube local fazia a festa de subida da III à II divisão e as duas caravanas irmanaram-se durante vários minutos. Em Alcobaça (o Ginásio local descera da I à II divisão nacional) foi difícil passar em frente ao Mosteiro. A multidão, que aguardava com bandeiras gigantes do seu clube, queria bandeiras e cachecóis, apertando a caravana aguedense...

E até em Coimbra, por onde obrigatoriamente se tinha de transitar na ausência de alternativas viárias. Havia receio de que os “académicos” arranjassem problemas e os adereços foram arrumados por momentos. Seriam, porém, os adeptos do União, velhos rivais do “clube dos doutores”, a saudar vibrantemente, junto à Estação Velha, cada viatura identificada com as cores do Recreio.

 

A multidão junto à ponte

 

Já em Águeda, a dificuldade foi entrar pela única ponte então existente, que servia a principal estrada nacional do país e por onde passava todo o trânsito automóvel entre Porto e Lisboa.

Formaram-se longas filas de veículos e a multidão foi-se juntando na Praça da República, esperando ansiosamente os heróis da subida. Os jogadores regressaram já passava da meia noite, depois de um jantar no restaurante... S. Sebastião, em Pombal.

A festa arrastou-se pela noite fora, com o arraial das festas de S. Sebastião (realizada nesse ano nos terrenos onde hoje se situa o Centro Comercial Diana) a ajudar. Os sinais da euforia eram bem visíveis por todo o lado, até porque os jogadores se misturaram com os adeptos, celebrando nas ruas de Águeda.

...E o santo terá perdodado? (III) - Levar o ouro para Peniche

Augusto Semedo, 14.08.08

Águeda ficou efectivamente deserta. Depois das 7 da manhã, hora da concentração dos vários grupos (… e eram tantos distribuídos por 22 autocarros!) em zonas distintas da então vila. E também um pouco por todo o concelho. Todos queriam viver de perto aquele dia de glória.

Tanto assim que muitos aguedenses levaram todo o ouro, e outros valores, que possuíam nas suas habitações. Receavam que ladrões profissionais aproveitassem a ausência generalizada para actuar.

Águeda foi muito bem recebida em Peniche. Até à jornada final, a “guerra de comunicados” entre as direcções do Recreio e do Académico de Coimbra, que encheram páginas nos jornais desportivos nacionais, foi benéfica para a imagem e a afirmação popular do clube aguedense.

Daí que Peniche represente bem mais que o jogo da subida para quem teve a oportunidade de testemunhar o carinho com que vilas e cidades receberam a caravana proveniente de Águeda.

Nas Caldas da Rainha, por exemplo, um sócio do Recreio que ia a caminho de Peniche abeirou-se de um cidadão local que lia um jornal desportivo e perguntou-lhe onde podia comprá-lo. O leitor fitou-o, reflectiu e perguntou: - “O senhor é de Águeda?”. Perante a resposta afirmativa, e num gesto brusco e inesperado, entregou ao aguedense o jornal que possuía: - “Tome lá, e boa sorte para o jogo!”

...E o santo terá perdoado? (II)

Augusto Semedo, 14.08.08

Peniche, 5 de Junho de 1983.

Águeda “mudou-se” para aquela vila piscatória: cerca de 8 mil pessoas foram apoiar o Recreio, que apenas precisava de um empate para superar o então Académico de Coimbra (de Mário Wilson) e subir, pela primeira vez no seu historial, à I divisão nacional. Motorizadas, automóveis e mais de 20 autocarros transportaram a ambição de uma comunidade inteira, unida em torno do seu maior símbolo des­portivo.

Era tempo da afirmação colectiva através dos seus símbolos, era tempo de mostrar orgulho das suas raízes...

Era o tempo de espetar a bandeira do clube ao lado da estrada enquanto se confortava o estômago num qualquer pinhal plantado ao longo do trajecto. Na época, e com alma imensa, se dizia que era de Águeda!

 

O santo perdoou?

 

Águeda, nesse 5 de Junho, vivia duas outras manifestações colectivas de grande tradição popular: o final do Grande Prémio Abimota em ciclismo e as festas em honra de S. Sebastião. Neste caso, realizadas no bairro que mais de perto conviveu com as tardes de glória e alguns momentos de infortúnio do Recreio nos anos em que militava nos campeonatos distritais (antes de 74). Quando a capela era vizinha do campo de futebol, hoje Praça do Município.

E se o Abimota conheceu a pior adesão de público desde que se realiza, a procissão em honra de S. Sebastião esteve em risco de não sair para a rua… por falta de quem pudesse levar o andor.

Houve quem, antes de sair para Peniche, tivesse recolhido à velha capela da Venda Nova para pedir perdão ao santo pela “traição” de o abandonar no dia em sua honra. Hoje, há quem afirme, em tom de brincadeira ou mais a sério, que o S. Sebastião não mais perdoou tamanha desconsideração ao Recreio Desportivo de Águeda. Será?

…E o santo terá perdoado? (I)

Augusto Semedo, 14.08.08

Fez, em 5 de Junho último, 25 anos que o Recreio de Águeda subiu à I divisão nacional e escrevia a página mais brilhante do seu longo historial.

A então vila viveu, em uníssono e eufórica, o dia da consagração: primeiro, “mudou-se” para Peniche; depois, conheceu a maior alegria colectiva de que há memória.

Águeda ficou deserta: houve quem levasse o ouro que possuía com medo que a casa fosse assaltada e também quem tivesse pedido desculpas a S. Sebastião pela ausência no dia da festa em sua honra.

(publico texto completo no jornal Região de Águeda de 15 de Agosto de 2008)