COISAS E COISINHAS DO NOSSO MUNDO augusto semedo

26
Out 07

Um dia, o pai de um atleta abeirou-se de mim: - Se quiser fazer a sua casa, e precisar de terraplanar o seu terreno, faço-lhe o trabalho com todo o gosto!

- Muito obrigado, mas não irei necessitar! - respondi. Insistiu. Voltei a rejeitar a oferta. - Não tenho qualquer problema em fazê-lo, trabalho nisso e aos fins-de-semana terei todo o gosto em terraplanar o seu terreno.

- Não tenho terreno nem qualquer plano para fazer casa! - disse-lhe, de novo. - Então, qualquer coisa que precisar...

Estava no meu primeiro ano como treinador, em 1985. Curiosamente, não mais voltei a lidar com uma situação parecida. Ainda bem.

O filho não jogava habitualmente. Para mim, porém, o jogar ou não, o jogar mais ou menos tempo, nunca obedeceu a critérios de simpatia ou de favores. Sou pela análise técnica e pela assumpção de responsabilidades que advém das tarefas e funções que cada um tem numa determinada estrutura. Cultivo o princípio de que as relações pessoais não devem interferir nas decisões profissionais, sejam estas bem ou mal tomadas.

Era um pouco (ou demasiado...) verde nessa época. E tive dificuldade em encaixar o que, chegando ao meu conhecimento, se seguiu a este episódio. Limitara-me, afinal, a proceder como a minha consciência mandava.

O homem, descontente com uma recusa que me parecia não oferecer dúvidas, começou a passar pelos cafés e tabernas da aldeia onde habitava que o treinador só utilizava nos jogos os filhos dos ricos, e coisas assim.

Sempre recusei lidar com expedientes mas quem se habituou a conviver com eles terá muita dificuldade em aceitar que haja alguém que os rejeite. Quantos serão? Por isso, talvez, sejamos hoje o país do ocidente com maior índice de desconfiança. Desconfiam de tudo e de todos, dos que agem de acordo com princípios e dos que os infligem de forma constante. Não há distinções. Duvidam. Insinuam.

Acham que tudo se consegue não pela razão mas pela insinuação, não pela competência mas pela capacidade de influenciar, não pelo mérito mas pelo compadrio.

Por isso, em Portugal, dificilmente se valoriza o que merece ser valorizado, se aprecia o que merece ser apreciado, se apoia o que merece ser apoiado.

Porque quem desconfia não acredita!

 

Usam a maledicência como arma de defesa.

publicado por Augusto Semedo às 14:58
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