COISAS E COISINHAS DO NOSSO MUNDO augusto semedo

19
Nov 10

O secretário de Estado Paulo Campos diz tratar-se de justiça. Outros políticos falam amiúde do princípio do utilizador/pagador. Há ainda quem se revele criativo em argumentos estapafúrdios.

Trata-se, antes, da castração da vida económica e social em Portugal; de um custo incomportável para quem usufrui dos piores salários do espaço europeu, dos combustíveis mais caros e dos carros mais caros pela incidência de uma violenta carga fiscal no seu preço base.

 

As portagens nas SCUT’s são também imorais e um retrocesso evidente num Portugal que teve fundos estruturais para se poder aproximar dos padrões de competitividade europeus. Pediam-se (quando se elaborou o plano rodoviário nacional) variantes a estradas que passavam pelo interior de centros urbanos, vias construídas no tempo dos carros de bois (estreitas e tantas vezes sem passeios que garantam segurança mínima para passantes e residentes) incomportáveis por isso (e pelos condicionalismos inerentes de circulação) para o trânsito já há 30 anos... Deram-nos AE’s, algumas delas decalcando vias construídas integralmente pelo Estado (vide IP5, agora A25), com a garantia de não terem custos para o utilizador.

Tudo se passa num país sem alternativas rodoviárias (isso é tão evidente que nem vale a pena dar credibilidade a estudos de conveniência). Ainda para mais, num país sem uma rede de transportes públicos que assegure convenientemente a circulação de pessoas e bens. Em breve, as estradas, que voltaram a estar saturadas de tráfego incomportável para as condições que oferecem, sofrerão inevitavelmente danos significativos. O Estado terá dinheiro para as recompor? E as pessoas que ali habitam: terão segurança e qualidade de vida?

Se a AE  Coimbra/Oliveira de Azeméis fosse em frente, e com a variante de Águeda construída pelo Estado decalcada e portajada como se pretende, o trânsito voltaria ao centro da cidade. Isto faz algum sentido? Para quem?

 

Deixo alguns exemplos de como o custo das portagens em Portugal é bastante mais elevado que na Europa. O leitor analise distâncias, quilómetros em AE’s (utilizando verdadeiras alternativas em via dupla não portajada em distâncias significativas) e quanto se paga. Adicione-lhe o custo dos combustíveis e o preço que pagou pelo veículo. Tenha em atenção que em países como Holanda, Bélgica e Dinamarca, onde o combustível é ligeiramente mais caro que em Portugal, as cidades estão ligadas por AE’s sem qualquer encargo para o utilizador e que, além disso, há comboios e outros meios a atestar eficientes redes de transportes públicos (por todo o território, não apenas no eixo Porto/Lisboa).

 

Aos que advogam o critério do utilizador/pagador: seremos nós mais inteligentes que os outros? Teremos noção das implicações destes custos na vida económica e na evolução dos preços de bens e serviços? As primeiras queixas já se escutam... Os espanhóis que estão mais próximos do Porto de Aveiro, ou das nossas praias ou de outros pontos de referência nacionais, voltar-se-ão para destinos que, mesmo ficando mais distantes, têm custos inferiores. E andou o Estado a construir uma ligação ferroviária (exclusiva!) destinada ao transporte de mercadorias para o Porto de Aveiro...

 

Trata-se de uma inevitabilidade? Bom, a quem ganha principescamente tendo em conta a realidade da esmagadora maioria dos portugueses exige-se que tome decisões competentes pelos cidadãos e pelo bem público. Que decida em nome do interesse colectivo, não na lógica dos privados, particularmente em sectores fundamentais. Que, liderando e decidindo por todos nós, seja produtivo e crie condições objectivas para que possamos ser competitivos. Não o seremos certamente com a disparidade de custos que aqui se evidencia. Se é uma inevitabilidade então pergunte-se: o que fizeram eles durante todo este tempo? Infraestruturaram o país ou esbanjaram uma oportunidade histórica para beneficiar a sociedade que representam e que chegou a acreditar? Se é uma inevitabilidade, retirem-se então ilações deste balanço desastroso e que teima em continuar com mais um presente envenenado: o TGV. 

 

EXEMPLOS

  • Águeda / Albufeira = 490 km (463 em AE) = 34,90 euros
  • Águeda / Viana do Castelo = 148 km (127 em AE) = 7,85 euros
  • Águeda / Madrid = 511 km (478 em AE) = 8,35 euros (*)
  • Águeda / Barcelona = 1134 km (1086 em AE) = 18,75 euros (*)
  • Águeda / Bordéus = 1002 km (969 em AE) = 18,90 euros (*)
  • Águeda / Paris = 1578 km (1483 em AE) = 32,10 euros (*)
  • Águeda / Colónia = 2045 km (1945 em AE) = 64 euros (*)
  • Águeda / Amesterdão = 2065 km (1966 em AE) = 65,60 euros (*)
  • Águeda / Berlim = 2617 km (2512 em AE) = 64 euros (*)
  • Águeda / Copenhaga = 2761 km (2621 em AE) = 64 euros (*)

(*) Enquanto a A25 não for portajada entre Albergaria e Vila Formoso (190km), portanto no troço português

publicado por Augusto Semedo às 12:01

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