COISAS E COISINHAS DO NOSSO MUNDO augusto semedo

14
Ago 08

A emoção ainda toma conta de quem viveu a gloriosa jornada de Peniche, em 5 de Junho de 1983. Principalmente daqueles que conheceram a realidade reluzente de um clube em processo de afirmação, de direcções empenhadas e responsáveis, de estruturas competentes e dinâmicas e de uma comunidade que se revia nas façanhas de um seu embaixador.

Foi há 25 anos! O momento que procuramos recordar traduz muito mais que o simples sucesso desportivo.

Seguem-se neste blog quatro peças de um mesmo texto, intitulado "...E o santo terá perdodado?", publicado na edição de 15 de Agosto de 2008 no jornal Região de Águeda (páginas 24 e 25)

publicado por Augusto Semedo às 15:40
tags:

A imensa caravana ague­dense seria fustigada por um tão inesperado quanto intenso temporal. No supermercado local, perto do velhíssimo campo do Baluarte, o plástico esgotou. E, se mais houvesse, esgotava na mesma. Serviu para proteger o corpo das fortes chuvadas da tarde.

Nem isso esfriou a euforia de quem queria participar naquele histórico momento, não importando se o corpo estava seco ou molhado.

O jogo foi correndo de feição e a subida do Recreio nunca esteve verdadeiramente em perigo. A poucos minutos do final, um conhecido aguedense olhava para o relógio e dizia no seu jeito característico: “Faltam 10 minutos para ver o meu Sporting em Águeda!”

No final, imediato à conversão do penalti do 5-2, deu-se a invasão pacífica do velho e encharcado “pelado”. Seguiram-se as habituais cenas de triunfo, o champanhe por entre lágrimas de alegria e a certeza de que Águeda, finalmente, estava no escalão máximo do futebol português.

O regresso foi lindo. Perfeito. O “carnaval” aguedense foi vitoriado pelos adversários. Primeiro, em Peniche: - “Vamos assistir à festa, o Águeda merece!”, dizia um habitante local. Depois, no regresso a Águeda.

Entre Peniche e as Caldas, vários populares, ao lado da estrada, associaram-se à imensa alegria aguedense. Nas Caldas, o clube local fazia a festa de subida da III à II divisão e as duas caravanas irmanaram-se durante vários minutos. Em Alcobaça (o Ginásio local descera da I à II divisão nacional) foi difícil passar em frente ao Mosteiro. A multidão, que aguardava com bandeiras gigantes do seu clube, queria bandeiras e cachecóis, apertando a caravana aguedense...

E até em Coimbra, por onde obrigatoriamente se tinha de transitar na ausência de alternativas viárias. Havia receio de que os “académicos” arranjassem problemas e os adereços foram arrumados por momentos. Seriam, porém, os adeptos do União, velhos rivais do “clube dos doutores”, a saudar vibrantemente, junto à Estação Velha, cada viatura identificada com as cores do Recreio.

 

A multidão junto à ponte

 

Já em Águeda, a dificuldade foi entrar pela única ponte então existente, que servia a principal estrada nacional do país e por onde passava todo o trânsito automóvel entre Porto e Lisboa.

Formaram-se longas filas de veículos e a multidão foi-se juntando na Praça da República, esperando ansiosamente os heróis da subida. Os jogadores regressaram já passava da meia noite, depois de um jantar no restaurante... S. Sebastião, em Pombal.

A festa arrastou-se pela noite fora, com o arraial das festas de S. Sebastião (realizada nesse ano nos terrenos onde hoje se situa o Centro Comercial Diana) a ajudar. Os sinais da euforia eram bem visíveis por todo o lado, até porque os jogadores se misturaram com os adeptos, celebrando nas ruas de Águeda.

publicado por Augusto Semedo às 15:36
tags:

Águeda ficou efectivamente deserta. Depois das 7 da manhã, hora da concentração dos vários grupos (… e eram tantos distribuídos por 22 autocarros!) em zonas distintas da então vila. E também um pouco por todo o concelho. Todos queriam viver de perto aquele dia de glória.

Tanto assim que muitos aguedenses levaram todo o ouro, e outros valores, que possuíam nas suas habitações. Receavam que ladrões profissionais aproveitassem a ausência generalizada para actuar.

Águeda foi muito bem recebida em Peniche. Até à jornada final, a “guerra de comunicados” entre as direcções do Recreio e do Académico de Coimbra, que encheram páginas nos jornais desportivos nacionais, foi benéfica para a imagem e a afirmação popular do clube aguedense.

Daí que Peniche represente bem mais que o jogo da subida para quem teve a oportunidade de testemunhar o carinho com que vilas e cidades receberam a caravana proveniente de Águeda.

Nas Caldas da Rainha, por exemplo, um sócio do Recreio que ia a caminho de Peniche abeirou-se de um cidadão local que lia um jornal desportivo e perguntou-lhe onde podia comprá-lo. O leitor fitou-o, reflectiu e perguntou: - “O senhor é de Águeda?”. Perante a resposta afirmativa, e num gesto brusco e inesperado, entregou ao aguedense o jornal que possuía: - “Tome lá, e boa sorte para o jogo!”

publicado por Augusto Semedo às 15:35
tags:

Peniche, 5 de Junho de 1983.

Águeda “mudou-se” para aquela vila piscatória: cerca de 8 mil pessoas foram apoiar o Recreio, que apenas precisava de um empate para superar o então Académico de Coimbra (de Mário Wilson) e subir, pela primeira vez no seu historial, à I divisão nacional. Motorizadas, automóveis e mais de 20 autocarros transportaram a ambição de uma comunidade inteira, unida em torno do seu maior símbolo des­portivo.

Era tempo da afirmação colectiva através dos seus símbolos, era tempo de mostrar orgulho das suas raízes...

Era o tempo de espetar a bandeira do clube ao lado da estrada enquanto se confortava o estômago num qualquer pinhal plantado ao longo do trajecto. Na época, e com alma imensa, se dizia que era de Águeda!

 

O santo perdoou?

 

Águeda, nesse 5 de Junho, vivia duas outras manifestações colectivas de grande tradição popular: o final do Grande Prémio Abimota em ciclismo e as festas em honra de S. Sebastião. Neste caso, realizadas no bairro que mais de perto conviveu com as tardes de glória e alguns momentos de infortúnio do Recreio nos anos em que militava nos campeonatos distritais (antes de 74). Quando a capela era vizinha do campo de futebol, hoje Praça do Município.

E se o Abimota conheceu a pior adesão de público desde que se realiza, a procissão em honra de S. Sebastião esteve em risco de não sair para a rua… por falta de quem pudesse levar o andor.

Houve quem, antes de sair para Peniche, tivesse recolhido à velha capela da Venda Nova para pedir perdão ao santo pela “traição” de o abandonar no dia em sua honra. Hoje, há quem afirme, em tom de brincadeira ou mais a sério, que o S. Sebastião não mais perdoou tamanha desconsideração ao Recreio Desportivo de Águeda. Será?

publicado por Augusto Semedo às 15:31
tags:

Fez, em 5 de Junho último, 25 anos que o Recreio de Águeda subiu à I divisão nacional e escrevia a página mais brilhante do seu longo historial.

A então vila viveu, em uníssono e eufórica, o dia da consagração: primeiro, “mudou-se” para Peniche; depois, conheceu a maior alegria colectiva de que há memória.

Águeda ficou deserta: houve quem levasse o ouro que possuía com medo que a casa fosse assaltada e também quem tivesse pedido desculpas a S. Sebastião pela ausência no dia da festa em sua honra.

(publico texto completo no jornal Região de Águeda de 15 de Agosto de 2008)

publicado por Augusto Semedo às 15:25
tags:

Agosto 2008
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9

10
11
12
13
15
16

17
18
19
20
21
22
23

24
25
26
27
28

31


subscrever feeds
mais sobre mim

ver perfil

seguir perfil

2 seguidores

pesquisar neste blog
 
Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

blogs SAPO