COISAS E COISINHAS DO NOSSO MUNDO augusto semedo

10
Jun 13
Há os aproveitadores, que têm o dom de converter para si momentos conjunturais favoráveis, e aqueles que esgravatam, afocinhando para dar uma nova dimensão a individualidades e ao colectivo que integram.
Uns manipulam ardilosamente, ou insinuam-se descaradamente, navegando à superfície conforme o fluxo; outros mergulham tão fundo nas correntes dos fazeres e às tantas, arrastados, são não raras vezes engolidos por quem emerge à sua volta.
O mérito de quem afocinha é quase sempre incompreendido e muito dificilmente reconhecido! Poucos compreendem os fazeres que alimentam uma realidade, muito menos o sentimento dos que a promovem (o sustento moral, base espiritual para as acções, e as manifestações de vontade, força motriz para o empreendimento), as decisões e os conteúdos que possibilitaram superar desafios num percurso geralmente longo e sinuoso, e os momentos marcantes que determinaram a sua evolução.
Depois, há os invejosos, intriguistas que desdenham em permanência realidades alheias. Os invejosos, chafurdando no lodo, nunca acreditarão verdadeiramente que um dia também eles poderão determinar realidades próprias, sólidas e limpas.
Este é o habitat da mediocridade, amedrontado por alguns, vencido pela emoção e a intriga de muitos, rendido ao negativismo de todos; que não investe no imenso potencial adormecido e condicionado, que desconfia do fazer bem e se desgosta do fazer alheio.
publicado por Augusto Semedo às 17:13
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02
Mai 13

“Liberdade é responsabilidade!”. A frase, escrita num simples papel colado na parede do átrio da escola, despertou curiosidade. Fui-me interrogando, depois, sobre o seu real sentido. Era um miúdo de 12 anos, recém-chegado a uma escola secundária em plena fase conturbada pós 25 de Abril. Nos corredores, alunos finalistas saíam em perseguição das colegas de turma, desde o interior das salas de aula, agarrando-as e arrastando-as de novo para dentro, enquanto os professores permaneciam impávidos nas suas secretárias. Uma das minhas professoras, ligada aos defuntos movimentos radicais de esquerda, faltava a mais aulas que às que comparecia, motivada que estaria pelos ideais revolucionários em vez da obrigação de ensinar. Tínhamos medo de sair do recinto escolar. Os mais velhos usavam gangas desarranjadas, cabelos e barba selvagem... Perseguiam-nos à saída, pontapeando imberbes caloiros que corriam sobressaltados à frente de tão demoníacas figuras. Em redor, construções inacabadas, perdidas no tempo à espera de financiamento, como o Cine Teatro São Pedro e a Fundação Dionísio Pinheiro, potenciariam atos marginais que resultavam, dizia-se, da libertinagem de Abril. A avenida Eugénio Ribeiro era um longo estaleiro a anunciar habitação citadina na principal artéria da nova urbe, servida então por uma estrada ainda em terra batida...

 

Há coisas que nos despertam atenções, sobre as quais refletimos sem para isso sermos obrigados, e não sabemos bem porquê. Liberdade é responsabilidade!... Que raio... A liberdade caíra-nos nas mãos findo décadas de ditadura. Ditadura política, diziam-nos. Será apenas política?

O povo rejubilava, achando alguns que a liberdade seria libertinagem. Mas, liberdade devia ser responsabilidade. Quase 40 anos depois quantos lhe darão sentido?

 

De repente, penso em Colónia, cidade/metrópole alemã com um milhão de habitantes. Com a sua rede de metro infinitamente mais extensa que a do Porto e Lisboa juntas. Linhas urbanas e ligações a núcleos urbanos contínuos, como Bona, a 20 km, antiga capital da Alemanha ocidental até à queda do muro da vergonha. Máquinas de validação de bilhetes nas estações e no interior das composições. Multas para infratores até 40 euros.

Chego ao Porto alguns meses depois, aeroporto Sá Carneiro, metro para o centro da cidade. Máquinas de validação apenas no exterior, nas estacões, não no interior das composições. Multas até 100 euros para quem não validar bilhete. A minha companheira de viagem esqueceu-se de o fazer e só deu por isso após a paragem na primeira estação. Entraram fiscais. O rosto avermelhou-se enquanto constatava o esquecimento de quem faz o trajeto uma vez em muito tempo. Multa pela certa! Perguntei ao senhor fiscal: porque não máquinas também no interior das carruagens como em Colónia? Porque assim as pessoas dariam a tempo pela sua presença, validando de imediato os títulos de transporte. Questionei se não seria essa a sua principal missão. A resposta ficou num encolher de ombros...

Em Colónia, com tantas estações, tantas entradas e saídas, e movimento significativamente superior, não me apercebi de fiscalização, muito menos de utentes incumpridores. Um português, quando cheguei à cidade, sugerira-me: “O melhor é arriscar e não comprar bilhete... Quando aparecerem os fiscais já gastou mais em bilhetes que os 40 euros da multa que lhe vão passar”. O chico espertismo lusitano no máximo da sua afirmação! Liberdade é, afinal, mesmo, responsabilidade?!

 

Questiono se a mensagem perdida numa simples folha de papel, colada na parede de uma escola, entretanto alvo de avultado investimento de requalificação, não faz ainda hoje todo o sentido. E se as novas gerações – encurraladas na impessoalidade de uma escola nova e maior, crescendo em disputa permanente, num território progressivamente segregado por uma competitividade sem limites mas onde permanece o fazer por imposição – não deveriam refletir sobre a mensagem de que ter liberdade é saber usá-la com responsabilidade. No cumprimento de regras coletivas, no respeito pelas hierarquias de uma qualquer organização, na forma criteriosa e madura, sobretudo construtiva, como se pode e deve usar a liberdade de expressão e de realização...

Questiono se a atual opressão não se evitaria num quadro de efetiva cidadania, desde o poder eleito ao cidadão comum, de respeito e cooperação; num cenário de maturação social, resultado do investimento nas pessoas e no seu enorme potencial. Questiono se, com tal investimento, as pessoas e a sociedade que elas moldam à sua efetiva competência, não estariam hoje, quase 40 anos passados sobre Abril da Liberdade, superiormente habilitadas a construir mais responsavelmente o nosso futuro comum.

Liberdade é responsabilidade? Não será por isso, muito pela incompreensão da mensagem que tal frase transporta, que estaremos nesta confusão coletiva?

publicado por Augusto Semedo às 17:26
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28
Abr 13

Reflicto agora sobre a singularidade de uma conversa com um dos meus atletas jovem: como tão raras vezes, na voracidade dos dias, existe oportunidade para diálogos tranquilos sobre temas que tomam a nossa existência. Muitas vezes fiquei agradado com o seu comportamento desportivo e social perante o grupo que integra; como já aconteceu precisamente o contrário, tantas outras vezes.
No fundo, a inconstância, a irreverência e o desprendimento, que já nos caracterizavam também quando tínhamos a sua idade, contrastam com a maturação entretanto encontrada através da instrução que a vida adulta, com momentos marcadamente vivenciados, nos transmitiu. Éramos então jovens igualmente ingénuos e inseguros, simultaneamente de mente fresca e com certezas absolutas aparentes, investidos de uma vontade em mudar o mundo e de uma energia que acreditávamos nunca se esgotar, tal como acontece com os de hoje. Olhando-os, vemos duas diferenças apenas, embora significativas, que traduzem um tempo novo para uma geração com desafios perigosamente escondidos: crescíamos então num contexto mais modesto e comunitário, que apelava à responsabilidade individual perante os outros e a uma interacção potenciadora de partilha e de respeito mútuo; e não tínhamos pais que faziam dos filhos seres únicos e os mais especiais do universo mas alguém que integrava uma comunidade com os mesmos direitos e deveres dos outros.
É engraçado como as experiências nos fazem mais maduros mas também nos ensinam a relativizar e até a lançar dúvidas sobre tantas certezas absolutas que em tempos nos mobilizaram, sendo mesmo a matriz para decisões (criteriosas ou estúpidas) nucleares na nossa vida. Afinal, o mundo até mudou mas fomos nós quem a ele se obrigou a adaptar; e a energia vai-se esgotando, tanto mais rápido quanto nos deixarmos abater pelos dissabores.
Há um tempo para tudo, de facto. E compreende-lo é importante, embora haja comportamentos capazes de penalizarem realidades colectivas. Devemos ser tolerantes, fazendo compreender a necessidade de mudança; ou intransigentes, agindo condicionados pela necessidade de obtenção do resultado final? Nesta sociedade, será que quem compreende os outros dificilmente será considerado e conquistará sucesso? Aqueles que se compreendem a si próprios, condicionando a realidade envolvente às suas estratégias pessoais, estarão por essa forma mais próximos dos seus objectivos?

publicado por Augusto Semedo às 17:40

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